sábado, 7 de abril de 2018

esboçar uma existência

No limite em que eu escondi minhas incertezas, eu fui fingindo tudo para parecer que, com tamanho fingimento, fosse possível habitar um espaço e estar verdadeiramente nele, e não vagando por distantes paisagens imprecisas. Foi só em 2014 que alguém descobriu a farsa que eu era enquanto eu orava silenciosamente para que o show de performances mantivesse a esperança de ser algo possível. Antes do ano da Copa no Brasil, foi um acúmulo indistinguível de rosnares e uivos, sozinho em casa ou na faculdade com alguém- foi só ao me entregar ao que chamam de amor que meu trânsito de fantasias foi policiado e eu fui arremessado a um lugar não-hospedeiro. Sozinho, enchia-me de medicamentos para dormir o maior número de horas possíveis e anestesiava-me com jogos de futebol pela televisão. Eu sabia que as bestas as quais estavam enjauladas desde o início da faculdade, e suas quimeras derivativas, pulariam do meu peito e bradariam contra o real quando eu fosse declarado culpado absoluto pelas encenações baratas e maldosas. Gritos nos shows, ler livros desesperadamente, ver todos os filmes metafísicos não eram sequer capazes de fazer cócegas na armadilha que eu montei durante tantos anos. As vozes de todos que partiram ainda ressoam nos meus sonhos, em que na maioria das vezes estou trancado sozinho no banheiro de uma casa  que não reconheço. A bebida também não era mais capaz de acalmar os lamentos e por causa dela eu frequentei o inferno pela primeira vez. Eu não tinha medo das lágrimas (elas eram raras), mas sim de que os arrependimentos deixassem-me tão imóvel e incapaz de vibrar com as cidades pelas quais eu passava. Eu não tinha medo da dor ou do pânico e nos únicos dois colapsos que eu tive eu não consegui evocar salvação nenhuma a não ser melodias espectrais de canções que ouvira uma ou duas vezes. Um corpo sem emoção é capaz de muita coisa e arruinar muitas vidas, espalhando a falsidade pelas palavras disfarçadas.

Domado pela ferida no olho causada por dois policiais em São Bernardo Do Campo, eu viajei pelas estradas escuras rumo à casa da minha avó. Tentando construir um futuro depois de tantos anos de desespero e sem saber o que fazer. Um ano depois eu consegui terminar meu primeiro romance, mas nada nunca conseguirá apagar a sensação de que todos os anos formadores da minha pessoa adulta foram um desperdício, de que eles renderam apenas narrativas fictícias para esboçar uma existência.

Paul Gauguin - Jacó e o Anjo

sexta-feira, 6 de abril de 2018

água transparente e peixes coloridos

E as águas estendiam-se por um horizonte tingido apenas por um azul indecifrável, e éramos jovens e os coqueiros altos de Angra dos Reis eram motivos de risadas (e o que não era naquela época?).

E o ritmo era de abundância porque o futuro prometia muito para todos nós. Enquanto tomávamos cerveja num boteco bem pequeno ao lado da pousada e contávamos histórias daquele mesmo ano e ríamos porque achávamos que elas se repetiriam de novo e de novo. 

E quando voltamos a Santo André o sentimento de oposição era algo permanente e aquelas histórias instalaram-se em nossa memória e sempre que as coisas apertavam recorríamos a elas como um depósito mal organizado de lembranças com algum poder restaurador.

E podíamos destruir tudo que de alguma forma recuperaríamos qualquer outra coisa em uma espécie de sistema assimétrico de recompensa. 

E era impossível medir o futuro porque guardávamos um otimismo materializado em bebidas e rolês, guardávamos a sensação ininterrupta de viver os clipes do Blink em looping porque, de fato, aos nossos olhos tudo era uma oportunidade para rir.

E eu sou apenas um ser choroso e incapaz porque eu vi suas fotos magro e careca e fechei o notebook tão rápido e bravo com tudo aquilo que quebrei seu suporte.

E reclamar do vazio existencial pareceu um absurdo e uma irrealidade fantástica, mas ainda tão afincada na existência porque quem morre são as pessoas velhas e não antigos amigos da adolescência com apenas 26 anos.

E com meu sangue escorrendo de leve do supercílio nós apenas ríamos novamente, pois havíamos tomado muita Bananinha gelada e qualquer tragédia era expelida por nossos risos.

E nomear qualquer piada interna era impossível e, se nunca dizíamos "eu gosto muito de você", era improvável não reconhecer nosso afeto nos jogos sábado de manhã ou nas longas e entediantes aulas do período noturno.

E os anos que se seguiriam nos separariam abruptamente e as conversas se tornariam mais esparsas a ponto de terem se encerrado pouco mais de um ano depois que terminamos o colégio.

E eu admirei essas lembranças ontem quando sonhei com esses momentos ouvindo Blink anos depois.

E eu percebi o quanto era refém das minhas distorções de memória e do meu egoísmo quando uma amiga me contou que preferia se afastar, e eu acho que fiz isso quando fiquei sabendo da sua doença e vi seu estado e nem procurei saber em qual hospital você estava porque a gente não vinha conversando, então minha amiga disse que eu era uma pessoa muito orgulhosa. Mas não era ressentimento pelo afastamento, eu realmente não tinha coragem de perguntar para qualquer um onde você estava.

E eu tenho oferecido meus dias às lembranças e me resignado ao fato de que eu sempre vou ficar estacionado e de que tudo de bom já foi vivido.

E eu não aprendi nada disso, não tirei uma lição mais humana ou uma decisão definitiva sobre me agarrar a vida e ver seus milagres em cada desdobramento.

E quando a notícia chegou eu lembrei imediatamente nós nadando pelados em uma piscina em Angra dos Reis ou nos mergulhos naquelas ilhas tão distantes de nosso colégio , com água transparente e peixes coloridos.

E na real pelo menos eu sei isso sobre mim, não foi orgulho mas sim timidez. E o que mais pesa é que isso não alivia em nada quando você não é humano o suficiente para visitar quem foi seu melhor amigo no hospital sequer uma vez antes de ele morrer.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

alívio da realidade

Quando percebi você estava com as suas mãos sobre as minhas, fazendo me sentir acolhido pela primeira vez em meses. Eu ,quem tive poucos corpos tão próximos a mim, senti que aquele tipo de proximidade era algo que eu precisei a vida inteira, andando em círculos em torno de um desejo abstrato que nunca sabia ser possível materializar. Eu tenho mastigado aquele momento desde então, retardando a digestão para viver o máximo possível no exílio da lembrança e atrasar o acontecimento da realidade. Quando eu retribuí o carinho e a Liberdade mostrava-se lotada, eu lembrei as vezes em que caminhei por aquela praça sozinho pensando se um dia seria possível o milagre do acontecimento. Iludimo-nos de que duraríamos para sempre, pois precisávamos da confirmação do amor para fazer sentido toda aquela baboseira. E no êxtase do que nomeamos Província Amorosa criamos um retiro para negar tudo o que efetivamente acontecia. Todas as manhãs eu abria meus olhos procurando uma forma de mandar-lhe uma mensagem para provar a mim mesmo que o amor ainda era possível. Incapaz de ver que eu envelhecia sem cultivar nada além da necessidade de provar, para mim e para todos, que eu estava embutido numa narrativa e que, de alguma forma, essa ficção que chamava minha vida podia ser um alívio da realidade. Alimentado com a opressão dessa noção gigantesca e uma esperança ínfima de que algo como amor fosse possível e desejado.

Reality Generator -Petras Kostinas

sábado, 31 de março de 2018

cicatrizar as feridas

Com todas nossas palavras nós construímos um esboço de futuro enquanto tentávamos acreditar que esse mesmo esboço nos redimiria de todos os nossos erros. Eu usei durante três anos a pulseira que você me deu até que um dia, bêbado, eu quebrei ela numa mesa de bar. Ainda que bêbado, eu consegui lembrar nossas brigas culpando um ao outro enquanto qualquer esboço de futuro mostrava-se imprestável para cicatrizar as feridas.

Antes de voltar a Santo André eu fiquei te observando do lado de fora da janela, esperando que nascesse alguma força inconsciente, minha ou sua, para restabelecer um equilíbrio na relação entre mãe e filho. Eu reconheço  você em cada café ruim que eu faço e, especialmente, nos domingos de manhã sinto falta do cheiro forte invadindo a casa (acho que agora eu tenho que especificar qual casa). Os domingos aqui têm amanhecido ensolarados e as velhas do bairro perguntam-me sobre como você está. Eu respondo com meu pior sorriso, como se suportasse o peso de vinte e seis anos transitando na desconhecida estrada dos sentimentos. De volta a casa depois da feira dominical, eu vejo os restos de onde nós vivíamos e tentávamos demonstrar amor.

No ponto mais alto do bairro, o último andar comercial do Shopping, eu esbocei uma carta para te mandar pelo correio. Algumas lágrimas caíram sobre ela e eu desisti da ideia achando que era piegas e idiota e sentimentaloide. Eu tenho te dado flores em todos os últimos aniversários porque nunca te vejo usando as roupas as quais te dei. Eu amaldiçoei tantas vezes nossa relação que fiquei com vergonha da ideia de redenção ser só um remendo para algo sem conserto. Ou que a carta tenha sido impulsionada com um pesadelo sobre o dia que você morreria: quem escreve cartas a partir de pesadelos? Veja bem, eu não sabia que eu perderia tanto de mim quando moramos longe pela primeira vez. Eu não sabia o que sacrifício queria dizer e triste tê-lo apenas reconhecido ao ler um livro de uma inglesa morta há mais de cento e cinquenta anos. Sua ausência foi a consagração do meu elo de distanciamento. Sua ausência cortou o filtro suportável dos dias, como uma espada que desvela um mundo sem amor e atenção. Nossa história é de como perdemos as coisas importantes até percebermos como a casa vazia materializou-se pelo excesso de ressentimento.

A incredulidade de São Tomé - por Caravaggio

sábado, 24 de março de 2018

quarto quente

Eu não conseguia mais acessar os significados dos textos que eu escrevia, eu lia-os e questionava-me, "sobre o que mesmo são todas essas coisas?". Questionava se eram literais ou metafóricos, não lembrava os dias, não lembrava a cor da paisagem ao fundo e nem as cores dos olhos das pessoas que passaram. Elas são como uma fila inacessível e eu misturo todas elas e deixo as qualidades no modo aleatório como se apenas houvesse minhas interpretações diluindo qualquer individualidade alheia. As palavras, rígidas e estancadas num branco perpétuo, estagnavam qualquer fluxo de significado ou memória para um imediato presente-emergente tão frágil quanto curto. Eu fiquei bravo com tudo aquilo e meu cérebro agitado ordenou que minha mão socasse as paredes do meu quarto. Eu soquei e soquei. As partes inferiores dos meus dedos sangravam e as lágrimas que caíram, com certeza, foram uma reação à dor e não ao que acontecia. E não entendia o que acontecia e de qual origem surgia aquele desespero somado à incompreensão. Talvez eu tivesse bebido demais e a gente nunca consegue evocar significados precisos quando se está muito bêbado, eu lembro que deitei na cama e enrolei-me com edredom num calor desgraçado tendo a certeza de que vultos rodeavam-me. Convenci-me de que havia lábios para beijar-me e corpo para eu tatear quando aquela alucinação toda terminasse, como se eu passasse pelo Vale Da Morte e encontrasse afeto materializado do outro lado através de olhos bem intencionados. Mas a esperança evaporou quando a sobriedade chegou e eu descobri que não havia nada a não ser um quarto quente.

Portrait Painting - Merge by Michael Lang

segunda-feira, 12 de março de 2018

interações grotescas e performadas

Foi a minha pequena morte e foi lindo. Tudo desvanecia numa mancha irrepresentável, como se o próprio tempo fosse abolido em função daquele líquido instantâneo. Eu perdi o interesse em tudo ao redor e qualquer esforço para contatar alguém parecia em vão. Fatigado de interesse, fatigado de ter que ser cênico (e não corporal!) o tempo todo. Não havia isso enquanto eu estava lá: refém da dopamina e sua urgência. Ali, eu não queria poupar nada para o Efeito Coolidge, eu queria ser a combustão e a efemeridade e se tudo terminasse no clímax eu morreria com um sorriso satisfeito. É claro que depois eu fiquei triste, é claro que depois eu olhei uma casa vazia que se esquecia da presença de outros corpos, tão habitada com meu excesso: os feijões prontos, os pães e os cafés solúveis. A mesma linha que promove a euforia é arrebentada num desgosto vulgar ao reparar nas cores tingidas das paredes se descascando, neste quarto em que eu me enfiei com esperança de triunfos através de interações grotescas e performadas.

Depois que o ato estava completo eu encarei meus pés e a onda oculta de cansaço invadiu-me e fez-me arrepender instantaneamente do que havia sido feito. Eu pedi desculpas e jurei não fazer aquilo nunca mais, eu encarei o espelho desfocado como se aquilo fosse um transe: como se o cansaço que me abatia fosse temporário, ainda que eu soubesse que nada é capaz de rasgar essa convivência. Eu convivo há anos com essa vergonha e esse arrependimento-instantâneo.

Dane-se as interações, eu pensei. Dane-se ser qualquer coisa de sociável, há vida o suficiente neste cubículo onde tenho me enfiado. O que importa é a carne e essa criatura, o que importa é a fantasia que eu criei para alimentar meu avatar, a ponto de eu não saber quem domina e quem é dominado: se os comportamentos são reféns da distância, ou se a distância que fabrica esses esboços de relacionamentos. A mesma neuroquímica que produziu todo o prazer transformou-se em arrependimento, o mesmo racionalismo -do qual no ato eu me abdico ter- cresce volumosamente depois que só resta a mesma casa silenciosa e as mesmas esperanças estúpidas de encontrar algo online. Eu já vi coisas piores e mais reais, eu já vi pessoas próximas passarem pelos desafios nos quais eu nunca encontraria forças.

Todas as coisas ridículas a serviço da auto-estima se desvanecem depois que a máscara do pseudo-prazer cai e só resta um rosto em carne viva encarando. Ser desejado, a força que isso carrega, os hábitos que isso carrega e o quanto eu me anulo em prol desse objetivo irreal. A alegria fajuta das interações, a alegria completamente metabolizada de egoísmo ao ser procurado, ao aceitar o jogo de desejo-atração. A demonstração pública de necessidade, a submissão constante do próprio desejo às avaliações completamente aleatórias elencadas em um tribunal fluído do qual tanto dependo.

Eles são outros, eles são fantasmas e eu sou uma aparição para eles. A minha webcam não responde nada. Ela só pisca e pisca até a hora de eu dormir e, mesmo nos sonhos, ser preenchido pelas próprias aparências tão distantes de mim, tão inequivocadamente grotescas em seus aspectos sóbrios de onipresença. Redes extensas conectadas pelo consumo da falácia e da exposição, das fotos quadradas e redondas e da eterna vegetação no simbólico.

Eu vou tentar não ser tão duro comigo mesmo e pensar que isso acontece com todos.

Small Pleasures, 1913 - Wassily Kandinsky

sábado, 3 de março de 2018

vingança (The Spirit of Versailles - A Form of Closure)

Eu nunca pensei que isso seria tão difícil. Que, conforme a idade avançava, eu me fecharia mais e mais a ponto de os contatos serem sempre amenizados com um desvio de olhar. Sentimentos assim nunca me ocorriam até então. Essa "suspensão na vida adulta" desestabilizou o que tínhamos por regularidade ou idoneidade. Os dias passaram rápidos demais ao mesmo tempo em que senti que eles eram longos, demorando-se em sonolências arrependidas sobre a falta de perspectiva e o cansaço inebriante de quem sempre quis se retirar. De quem nunca soube falar nos momentos de que sabia serem marcantes. As palavras faltaram quando mais nos aproximamos, quando mais estivemos próximos retiramo-nos por lacunas auto-depreciativas e irônicas. Eu não posso saber o que isso tudo significou para você. As conversas de madrugada, o apoio, os desabafos. Eu queria sair desse labirinto que é imaginar os outros. Porque até mesmo minhas coisas são inacessíveis. Ou estarei sempre aqui, no início/fim de um ciclo repetitivo que se locomove por lacunas estranhas demais, as quais não cessam de nos surpreender pela capacidade de sufocar?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

se você prender sua respiração (karate - If You Can Hold Your Breath)

Essa cerveja sobre a mesa diz muito sobre o quanto perdidos estivemos nessa vida adulta. Fazendo as coisas no automático e procurando entretenimento simples em coisas que ocupassem nossas cabeças até a hora de dormir, insistindo em afetos impossíveis para que algum senso banal de completude viesse a romper com a frustração crônica dos dias. Se você beber comigo, eu posso te falar isso de um modo pessoal e dar-lhe mais exemplos. Isso, é claro, se você quiser. Nós vamos lembrar os escândalos em que nos detivemos, os fracassos que acumulamos, os vacilos que demos e a gente pode contar um para o outro como viemos parar nessa encruzilhada que passa a ser um local de encontro, um local de compartilhamento. Aguente firme que nós vamos andar por essas ruas hoje à noite. Elas estão contaminadas com nossos erros e receios de uma outra época e, ainda que não possamos apagar aquelas frustrações, nós podemos andar por elas re-significando esses locais sombrios com a ressonância um do outro. Encarar os fantasmas com a dimensão do presente, de achar algum ponto determinante em olhos alheios.

Festas são possíveis no limiar da existência das memórias porque elas irrompem-se sobre a beleza triste de nossas tragédias. Se você aguentar firme, com o tempo a disposição urbana vai passar a te afetar de outra forma. Eu sei que estou pedindo muita confiança e que meu passado não credita nada a meu favor, mas quantas vezes insistimos em ficar sozinhos deixando medos antigos tomar formas? Cervejas e mais cervejas, histórias e mais histórias, e a onipresença imponente de um isolamento ao qual sempre nos obrigamos. Se você beber comigo e andarmos por essas ruas talvez possamos perceber que a matéria da memória é a mesma que nos obriga a seguir em frente.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

novo #1

Você disse que não sabia o que dizer e eu disse que tudo bem. Eu não sei, eu ainda estava presente enquanto suas atitudes demonstravam outros interesses, outras pessoas. Você disse que tinha muita coisa para fazer, indicando com os olhos revirados que não queria minha presença . Eu tinha medo de que tudo estivesse se desmanchado. Não medo por nós. Um medo mais abrangente, um medo de tudo que pingava e contaminava a insistência de existir, um medo de que Betel pudesse partir sem se despedir e ficássemos presos um ao outro enquanto você preferia ficar sozinha. Noites em que eu fiquei acordado feito um idiota, precisando de atenção como quem precisa de oxigênio. Em uma dessas noites, fui observar a rua camuflado pela janela vítrea da sala-de-estar. Um homem com uma arma estava em pé diante do portão da casa do vizinho da frente. Eu sei que as pessoas podem ser cruéis, mas decididamente não esperava por aquilo. O ódio parecia-me uma coisa secundária e não a motivação principal. Isso eu só vejo agora que estou preso aqui. Eu estava cego naquela época em que não sabia que ódio entre irmãos é mais do que comum. Agora eu consigo pressentir que a cena daquela noite podia ser antecipada pela face sem-temor daquele homem. Os disparos lembraram-me da minha futilidade, da minha vergonha ao deixar que coisas simples desmanchassem belezas potenciais. Na verdade, a lembrança dos disparos que me remetem a isso. Naquela hora da noite, não sabia o que fazer sob dois barulhos altos e secos e precisos. Quando voltei a olhar pela janela, o portão estava indo e vindo com a força do vento enquanto um corpo bloqueava aquele movimento. Só eu e Deus éramos testemunhas. Ainda bem que você resolveu partir. Ou ainda bem que eu entendi pela irritação subliminar dos seus olhos que só poderíamos viver distantes. Que eles eram a decodificação imponente do que distância pode significar.

O corpo inerte. É impossível despertar em uma cidade feita de exílios.

"Aurora" -Anselm Kiefer

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ausência #4 (toda a sua vida)

Hibridamento, cruzamento, evolução: estipulações precavidas da união global baseadas nas normalidades  máximas, o avanço do triunfo enquanto as paredes descascadas são sinônimos de uma época ultrapassada. Ele assimila novas teorias para compensar o passado: é o ufanismo da revanche, é a invalidação da inexistência como fator originário que explica a destruição. É fácil assimilar o marasmo quando se coloca uma ficção trágica nele. A realidade é trocada pelas impressões. Como um cachorrinho que lambesse o sorvete no chão, ele fazia dos resquícios o que bem entendesse. Mas é primordial entender que, para ele, os resquícios eram tudo o que existia. Era inadmissível e improvável entender a realidade como algo além de vultos. Nós suspirávamos um futuro, a ponto do meu hálito ser absorvido pelo seu nariz. Nós acreditávamos nesse futuro? Futuro sempre foi adquirir um bônus, um mais-valia para imprimir a sensação de compensação. Não é como os princípios básicos da botânica, o futuro é a exceção à regra porque ele nos é arrancado. Ele é um improviso de uma banda a qual nunca tocou junto e que, se tivermos sorte, encontraremos instrumentos similares aos quais nós passamos a vida ensaiando. Tão claro seu dom para a observação, para a memória fantasmagórica. O melhor colecionador que eu já conheci. Peças dispostas lustrosamente nas prateleiras prontas para a utilização. Espécies mutantes de argumentos convocados como fantasmas para transformar a dimensão presente em algo inteiramente novo, inteiramente destrutivo. Um fungo patogênico com origem no tribunal da infância e que o influenciou em decisões e julgamentos durante toda a sua vida. Ritmada nas decisões momentâneas que vão destinar toda a sua vida, a lapela recomendável ao nosso luto cresce e diminui como a maneira pela qual nos tratamos durante todo este tempo. Uma flor em fevereiro é comum, é aniversário de quem ele enxergou com tanta bondade. Eu nunca perguntei por que ele sentia todas aquelas coisas e como elas nasceram tão rapidamente em poucos dias.

Nós tínhamos dúvidas mais simplistas. Como trabalho e coisa e tal. Como se virar materialmente para ficarmos juntos até que essa abstração de "ficar juntos" mostrou-se inviável. Com um passaporte para convocar o fim, ou seja, como uma desculpa moral para execução de suas vontades reprimidas, ele disse as coisas de uma maneira muito adulta. Droga, eu não lembrava ele ser tão adulto. Mas sua genialidade mostrou-se perspicaz tantas vezes, descobrindo coisas que eu não revelava, indo atrás de acontecimentos passados e explicando-os através de algo que fazia sentido. Droga, você podia discordar, mas fazia sentido. Através da janela clara de sua pele, as marcas do amor desapareciam gradualmente para provar que, para ele, o conhecimento notório da performance era algo mais imediato e urgente. Apenas ontem havia carinho e amor, mas esses não são sentimentos fáceis de guardar e manter e esquece-se rapidamente de seus efeitos quando o chão em que se pisa abre-se sem misericórdia. Qual era seu nome? Sei que nasceu em um estado sobre o qual eu não conhecia praticamente nada. Tentava se fixar financeiramente enquanto fazia observações pertinentes acerca dos meus fingimentos. Limpava sua casa sempre que eu ia lá ou pedia desculpas quando o piso de madeira estava empoeirado. Afastava as cadeiras e a cama para que tivéssemos mais espaço. Movia-se ao parapeito para cuidar das pequenas plantinhas pela qual nutria grande atenção. Comia em silêncio, sobre a improvisada mesa da cozinha, com um rascunho de um sorriso calado no rosto. Antes de falar algo, forçava uma tosse para desobstruir a garganta. Então esticava os braços para alcançar a plenitude da rotina. E se movia pacientemente para voltar a cuidar das plantas, em pequenos movimentos os quais eu só consigo recordar agora, com certo distanciamento.

Alguma coisa sobre seus movimentos deixam-me mais hipnotizado quando lembro sua presença do que os sentimentos que eu enfrentava. Eu recordo mais esses movimentos quase-mecânicos do que a veracidade das coisas que sentia. Eu nunca perguntei o porquê de ele tentar me desvendar tantas e tantas vezes. Era algo intrínseco nele. Eu suponho que eu gostava dele e de suas minúcias acerca da minha falácia. Porque quando eu mostrei as coisas as quais eu escrevia, eu pressenti um olhar acusatório que me isolou na mais deslumbrante distância.

Retrato de uma Dama (Van der Weyden)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

... e crescem pontes entre nós

Solo úmido por lágrimas humanas
Ar, sombra e morte
Céu, nublado com medo e tristeza
Coração, desejo frio e traição

Agora ele está fora da eternidade;
Em um lugar onde a dor nunca acaba
Queda através do túnel escuro
Se
foi
Eu quero fazer de mim mesmo
Minhas dores no corpo
Marcado por anos de adoração obscura
Meus pulmões; aeração, fuligem e doença

A minha alma está afundada
Destruída por um abuso perpétuo
Meu templo interior agora caiu
Eu não sou nada


Você constrói a partir do exterior, foi construído a partir do interior
a construir-se como pedras
desmoronando, de fora para dentro

que são construídas como árvores
e crescem pontes entre nós



Rasgue minha garganta, beba meu sangue,
Estranhe-me, afogue-me,

Facas, executando, através,de mim,
Oh, mestre das feridas - corte-me

Deixe-me em seus braços
Mãos Frias, Dedos Como Lâminas,
Quebre meu pescoço, ponha para fora minha luz,
Esmague minha esperança,
Corte-me, me machuque, me cortar, me machucar ...
Corte-me, Corte-me, Corte-me, Corte-
Tome minha vida, mate-me e mate-me (e ...)
Eu sou o que você merece,
A morte faz-me submergir

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Discos favoritos de 2017

Propagandhi - Victory Lap

O Propagandhi não tem um disco fraco em toda a carreira e VIctory Lap é o ponto em que as letras ultra politizadas e também especulativas encontram a conversão entre punk rock e thrash metal.






9T Antiope – Isthmus

O minimalismo do disco leva a uma desolação sem igual.







Harris Eisenstadt – Recent Developments

A empolgação do baterista canadense constrói uma atmosfera afetiva que afasta qualquer necessidade cronológica ou narrativa.







Nicole Mitchell – Mandorla Awakening II: Emerging Worlds

A flautista Nicole Mitchell é uma das compositoras de jazz mais estimadas atualmente, esta é sua obra-prima.





GOD PUSSY – “DEGENERATE LANDSCAPE”

“Como a resistência é possível num mundo invertido” parece-me uma frase que combina muito quando ouço os trabalhos do God Pussy. É claro que o músico não quer resolver nada, mas ampliar a percepção desse monstro escondido por todos os métodos de esquecimentos contemporâneos. Pior, ou melhor, subtrai as formas de encobrimento pra evidenciar um rosto em carne viva, que não cessa de sangrar.



David Phillips- Rise

A paranoia de hiper-realidade entra num loop assim que se coloca para tocar o disco de um dos músicos mais radicais hoje em dia.






Steve Coleman- Morphogenesis

A hibridez musical tradicional de Coleman atinge seu ponto mais sensível e mostra um músico que respeita suas raízes enquanto investiga alternativas improváveis.





Vitor Brauer- Anjo Azul

Pra criação de um universo musical próprio, é necessário que o artista tenha um autoconhecimento de suas limitações e saiba como manuseá-las em prol de um repertório com valor sempre diferente. Essa mudança constante de valores talvez seja o tema central de “O Anjo Azul”.




Jaimie Branch – Fly Or Die

Estreia da trompetista enquanto líder de banda. Tanta coisa acontece neste disco que parece que tem muito, muito mais do que apenas 36 minutos. Cada um preenchido com extrema criatividade.






XIMBRA – A MALDIÇÃO DESTA CIDADE CAIRÁ SOBRE NÓS

O contraste árduo entre idealizações juvenis e a realidade crua é apresentado durante todo o disco. Em vez de simplesmente engolir essas maldades, a banda reconhece a opressão do mundo e ainda assim realiza uma expressão genuína de enfrentamento.



Irreversible Entanglements - Irreversible Entanglements

Free Jaz que é uma resposta direta às turbulências raciais e sociais dos EUA.







BOREGAS/MIAZZO – BOREGAS/MIAZZO

Talvez por uma dualidade marcante enquanto unidade (afinal, pode ser chamado ou de álbum ou de split) que “Boregas/Miazzo” me fez retornar tantas vezes ao disco e sentir estéticas claramente divergentes sendo emitidas uma seguida da outra.




Kendrick Lamar -DAMN.

Os questionamentos introspectivos de TPAB são examinados microscopicamente nesta jornada que eu demorei muito tempo para gostar. Ainda bem que não desisti.






Cama Rosa -Gato/Angular

Talvez por eu ter uma queda declarada por no wave e ser fã, basicamente, de todo o movimento de Nova Iorque do começo dos anos 1980 que “Gato/Angular” soou pra mim, mais ou menos, como a redescoberta inovadora de um tipo de sonoridade.




Vijay Iyer Sextet- "Far From Over"

A obra-prima que Iyer vinha esboçando há anos: entre composições e improvisações, o próprio ato da contemplação é confundido com o sensorialismo da cidade.





IMPOLUTO – LILIUM

Impoluto é uma dupla de Curitiba que, imediatamente, impõe uma massa densa ao ouvinte e repetições que perseguem a memória mesmo depois do disco ter acabado. Claro, o nome do duo contrasta com o que se ouve em primeiro plano, mas o que mais me chamou a atenção em “Lilium” (o segundo lançamento, que chega sete anos após “Impoluto”, de 2010) foi a forma que todo o ritualismo velado ganha dimensão, surgindo de outras delimitações sonoras.

Yazz Ahmed - La Saboteuse

Grande mistura de música árabe e jazz.








Tyshawn Sorey- 'Verisimilitude'

Uma visão fragmentada do que o jazz pode ser.






SISTEMA | OUTRO – AUTOMEMETERONIMONOMANO

Tentar catalogar toda a influência por trás do disco seria tolo, mas a primeira banda que veio à minha mente foi o Magma. As letra divertidas e caóticas encontram respaldo nos instrumentos tocados de maneira incomum e inusitada.





JD ALLEN - RADIO FLYER

Grande álbum de post-bop que lembra os maiores nomes do gênero.







OZU – THE DOWNBEAT SESSIONS VOL. 1 EP

“The Downbeat Sessions Vol. 1” incorpora a longa tradição da música eletrônica que teve seu principal expoente, claro, no Portishead e em toda cena inglesa nos anos 1990.






Rhucle / Mike Nigro - Flavor Of Water

Com certeza o disco mais subestimado do ano. Uma longa jornada de música eletrônica de enfrentamento e silêncio.






Dead Neanderthals - The Depths

Não só a visceral apresentação dos músicos é o que surpreende, mas também a própria produção do disco é forçada de diferentes maneiras ao longo do álbum.






Dálava - The Book of Transfigurations

Canções folclóricas interpretadas num nível muito intimista.







VITOR COLARES – FOTOGRAFIA DE RACHADURA

Vitor Colares diz sobre a dificuldade de esquecer alguém e a necessidade de fugir e esquecer, embora ele com certeza saiba que compor é imortalizar o efêmero, dar voz a um trânsito.






Linda May Han Oh - Walk Against Wind

Não sei o que é melhor neste disco: se a composição de Linda, se o improviso ou se a técnica.






I BURIED PAUL – NEPANTLA

A crescente insegurança que o I Buried Paul significa através do nome do disco é ressoada nas distorções arrastadas que naufragam o ouvinte em uma instabilidade perpétua na qual o transe e a hipnose do músico tomam nossa subjetividade.





Ellen Arkbro - For Organ and Brass

As mínimas frequências rearranjam constantemente as demonstrações sensoriais impostas pela música.






Stephan Crump, Ingrid Laubrock and Cory Smythe - Planktonic Finales

Três formações musicais diferentes criam uma interação que destoa a cada instante de tudo o que foi construído até então.






A-tros - Arcabouço

(Eu sempre fiquei muito intrigado sobre como certos artistas decidem abordar um passado nebuloso como a ditadura militar. Claro, não há fórmulas e dá pra fazer de todos os jeitos possíveis. Contudo, eu confesso que sinto um atrito maior em trabalhos como “Arcabouço”, que parece conter uma narrativa borrada e esquizofrênica sobre o sofrimento objetivo que foram aqueles anos)

domingo, 14 de janeiro de 2018

ausência #1

Sua sombra seguiu-me por essas ruas esburacadas, com poças d'água vivas, recém-formadas pela chuva de verão que acabou de terminar. Quietamente eu amaldiçoava meus impulsos irrefreáveis enquanto as pessoas passavam ignorando (quem sabe o inferno de cada um?). O cartão de entrada no mundo do abandono distorcia minha visão e cada retrato flagrado pelos meus olhos construía um símbolo de destituição. Cada objeto na rua guardar sua face é minha obstinação.

Como que bêbado sem beber, eu vomitei no asfalto enquanto uma criança me olhava assustada. Constantemente querendo chorar sem saber que lágrima alguma brotaria. Minha sombra dançou grosseiramente sobre o asfalto manchado, vacilando entre o dejeto do meu estômago e as poças d'água recém-formadas. Não sabendo se o que prendia, ainda, você a mim era o ressentimento ou as coisas não ditas ou o excesso de carinho.

A novela é que daqui a pouco a lua surge e as poças secam e a falta de enredo desta espera constituirá o que no futuro descreveremos como "aquele tempinho ali". Chorando pelado no banheiro, decididamente isso aqui não é um tempinho. Amanhã, com ou sem poças d'água, você ganhará uma vida absoluta nessas ruas novamente. E de novo e de novo.

Quando a lua surgir e eu não puder mais ver minha sombra vacilando sobre poças d'água imprecisas é sua imagem que vou usar para preencher a escuridão. E quando o sol surgir na janela e eu esquecer, por um breve momento, sua ausência eu vou agradecer por mais um dia. E quando eu não puder acreditar em mais nada, fecharei a mão na esperança de que seu calor ainda ecoe.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A fé de Thomas More em Utopia

A crença de Thomas More na força do ser humano persiste por mais de 500 anos numa época em que a fé é encarada com deboche.



"O homem, afirmam, está unido ao homem de uma maneira mais íntima e mais forte pelo coração e pela caridade do que pelas palavras e protocolos"

O que é a Utopia, essa palavra mal usada? O mundo imaginado por Thomas More era a representação da sua vontade em relação à extinção dos problemas sociais. Grande exemplo do humanismo, o autor teria sua cabeça decapitada por ordem do rei Henrique VIII. A crença no ser humano parece irônica quando não houve irmandade em relação aos supostos crimes que More pagou com a vida.

Os utopianos, cidadãos da ilha de Utopia, não acreditavam em tratados- pois estes colocavam os Estados acima dos seres humanos, causando a separação. As brigas são causadas pela distância, pela impossibilidade do reconhecimento do outro. Trancados em sua riqueza e em sua torre de marfim, não é de se duvidar que tal empatia cognitiva inexista em poderosos como Henrique VIII. 

O gosto pelo ser humano não impediu a sentença de morte que , no caso, foi recusar-se a prestar juramento religioso ao rei (ainda que More fosse ardoroso católico) e reconhecer o poderoso como figura maior no âmbito da fé.

Perceba que o humanismo demonstrado por Thomas More tem como forte causa de identificação o sentimento religioso, sendo sua fé tão intensa que se recusou a fazer uma espécie de "empréstimo espiritual" por acreditar na existência divina de forma inabalável. Acreditar sinceramente na força da razão e se defrontar com um mundo concreto em decomposição foi, provavelmente, seu maior teste de fé- não em Deus, mas na grandeza compartilhada na qual ele profundamente confiava.

O sistema político perfeito
No caso do livro Utopia, essa fé mostrou-se inabalável quando o autor atacou a "licença moral" promovida por Maquiável ao evidenciar que há outro mundo além deste corrompido. More, que exerceu diversas ocupações (desde advocacia à diplomacia), destacou-se ao avaliar a falta da empatia como marca de uma sociedade decadente. Saindo da posição cômoda, é notável a coragem do escritor ao vislumbrar outra forma de sociedade além deste mar-de-lama.

Como alguém disposto a conduzir seus contemporâneos a acreditar que os poderosos devam agir pelo interesse coletivo, atacou duramente reis e príncipes ao dialogar diretamente com os cidadãos. A forma de Utopia (diálogos platônicos) mantém o leitor frequentemente atento às diversas conversas entrecruzadas que se opõem à narrativa central (a distribuição política da ilha Utopia), a qual constantemente cita exemplos opostos às ordens vigentes.

Rafael Hitlodeu, personagem principal, narra os fatos da ilha e explicita sua não vontade em participar de nenhum tipo de governo que não seja o de Utopia. Essa renúncia de Rafael, no entanto, não é compartilhada por More em sua vida privada. Para mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor, é necessário negar o jogo sujo e a hipocrisia do "bem maior" e enfrentar as consequências de uma sociedade a qual você mesmo condena. O que é exatamente o contrário do loteamento estatal promovido pelos nossos governos desde as primeiras eleições diretas (com raríssimas exceções).

Se ,para Rafael Hitlodeu, a renúncia à configuração social é algo impossível após testemunhar a perfeição de Utopia, para Thomas More -cuja fé no ser humano não o deixa ser imparcial perante o jogo político- desistir foi algo impossível. A hipótese de deixar se submeter é proteger as falhas estruturais da sociedade. O fato de existirem pouquíssimas leis na ilha de Utopia (e a consequente ausência da classe de advogados) faz com que a concepção de More a respeito do sistema judicial seja evidente.

O símbolo da decadência social talvez seja a quantidade de leis que uma sociedade compõe. O não conhecimento das leis ,para Thomas More, não reflete a suposta ignorância do povo, mas é o hermetismo das sentenças judiciais que o deixa sem palavras, sem condições de defesa. A consciência da existência de uma linguagem tão complicada não erradica o problema. Para tanto, a alternativa do autor ao criar uma sociedade com campo jurídico inexistente. A sugestão de More pela abolição das leis e da sociedade privada constituem a crença no ser humano sem adornos, preocupado com coisas mais notáveis e não submetido às aparências desprezíveis (ouro, vaidade, distinção etc.).

Há ,por trás dessas críticas, a urgência da necessidade de uma reconstrução da divisão dos bens em prol da diminuição da desigualdade. Na Utopia, a livre crença na alma humana não se imortaliza apenas por sentimentos religiosos, mas pela fé na vida em todas as suas manifestações tanto espirituais quanto sociopolíticas.

Na ilha de Utopia, o valor do ouro é ínfimo porque não tem funcionalidade específica para a sociedade (ao contrário do ferro, por exemplo). Descobrir as coisas realmente valiosas talvez seja uma das empreitadas mais corajosas de More. A potência da humanidade está oculta, embaixo do véu do abstrato (paradoxalmente real) como o ouro, a guerra etc. A trágica situação política, os projetos dos colonizadores (em uma linguagem do século XXI: as instituições neoliberais) e o horror da miséria são ferramentas de manutenção desse encobrimento.

Uma nação tem como problema a carência de imaginar um projeto utópico alternativo, o que a impede de sair da asfixia do mercado, o que a impede de atender necessidades elementares. Desenhar a imagem de um país que "pode ser" e que "deve ser" trata, para More, de um gênero humano novo. A política momentânea é deixada de lado para o "pensamento da eternidade" (a utopia política de Guimarães Rosas, quatrocentos anos depois). Utopia é o projeto político de romper com essa merda, com a fome, com o desemprego e com o descaso das instituições canônicas. A experiência das ocupações de terra no Brasil, o esboço criativo antevisto por Rosa e a luta pela reforma agrária cabem no projeto impossível do escritor inglês.

A criação do movimento utópico, a partir da incorporação pragmática dos ideais de More, dirige o Estado a uma ideia coletiva de riqueza cultural, cuja experiência teórica continua a fundamentar os diálogos entre os mais diferentes campos sociais.

Período Anormal
O povão brasileiro necessita de uma abordagem intelectual que tenha um projeto dialogante com suas necessidades e urgências. Parece que as propagandas conversam mais com nossos cidadãos do que qualquer esboço de projeção acadêmica.

A dúvida do narrador de Utopia se o livro deveria ser publicado é fundamentada no quanto a obra realmente tinha a dizer para as pessoas. Há, até mesmo, o receio de os "juízos absurdos" de outrem. As pessoas não conheciam e tinha medo da literatura (o que não é diferente do contemporâneo. Se, mais de quinhentos anos depois, esse medo persiste, vale questionar de quem é a responsabilidade).

Ser condenado ao silêncio ou à morte? More não teve dúvidas. A derrocada humanista é conferida no que os quinhentos anos posteriores ao livro trouxe à humanidade. O argumento de More se mostra como uma tímida fagulha no escuro em um imenso campo neoliberal, cuja fundamentação insiste no papel cada vez menor do Estado nas esferas sociais.

More não necessariamente via uma representação democrática como bom papel para reparar os equívocos destrutivos forçados pelo poder. Segundo ele, a representatividade popular de um bom político se dá a partir de um redimensionamento do papel dos governantes na ordem social (rebatendo, mais uma vez, Maquiável). Aí está a vigilância espontânea que erradicaria a miséria, o silenciamento popular etc.

A fundação da humanidade, portanto, passa pelo bombardeio da condição de governáveis àquela de possibilidades incríveis, em que uma nação está apta a realizar suas potencialidades.

More deu muito a mundo por crer na condição humana.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As tonalidades do Brasil ("Que você é esse?", de Antonio Risério)

"Que você é esse?", de Antonio Risério, ratifica a história da miscigenação do Brasil sob a perspectiva de um tempo, paralelamente, obscuro e esperançoso.



"Se um dia eu resolver dar um tiro na cabeça, podem ter certeza de que não será na minha"

O que é a escrita de um povo, contar suas histórias, a não ser um esforço de atribuir a maravilha da ficção a uma meio técnico, pouco maleável como o historicismo rígido?

Desde o primeiro "conto" do livro (não entendam mal, é um romance) se guarda uma tentativa de encontro sob a luz da miscigenação que se descobria possível e era, como é hoje, interrompida por ordens hegemônicas. Um "diário histórico" inaugura-se a partir desse conto: cheiro de matas, comidas específicas, rios, rituais religiosos.

Um caderno temporal ganha vida no segundo capítulo, em que a história avança mais de 500 anos e estamos no tempo presente, descobrindo que o primeiro conto é -na verdade- uma escrita do protagonista real do romance. Risério é um dos autores que pegam o que muitos atribuem ao romance pós-moderno e deixa claro que, além de todas descrições sensoriais, o livro também dialoga com o fazer literário: "meta literatura". "Que você é esse?" é composto por dois eixos que se entrecruzarão até o fim do romance alternando entre a história da formação brasileira, nunca sob o ponto de vista pragmático, e as pessoas que vivem ao redor do protagonista, que podem ser rotuladas com a imprecisa alcunha de "intelectuais". Em "Que você é esse?" o narrador escreve sobre um país numa carta de amor disposta às maiores expressões de beleza que residem atrás da totalitária opressão histórica.

Daniel Kertzman, o protagonista, enumera sua história e a relaciona com várias passagens de formação importante para o país nos últimos 50 anos. As distâncias entre os eixos temporais apresentam sua diferenças óbvias, entretanto o que mais chama a atenção é o desejo simbólico que as une já que são, teoricamente, tão divergentes. A história se repete, a seu modo. Quando o enredo segue alguma cronologia, é narrado como as sociedades judaicas se organizaram no Brasil, especialmente na Bahia. No presente em que se escreve, as personagens encontram-se transitando e mudando de posições políticas e afinidades artísticas (mutáveis como a figura do camaleão que inicia e encerra o livro). É uma época em que não é possível ficar restrito a um nicho identitário e a abertura a outras perspectivas é um movimento constante, como ocorreu em toda formação geoespacial brasileira. A dor dilacerante dessas mudanças já foi (e continua sendo) insistentemente reclamada, mas esse é o mesmo processo que fez com que, por exemplo, judeus de classe-médias aderissem ao candomblé.

Depravação aristocrata
Se a ponta da formação histórica do Brasil é narrada com altas doses de violência e erotismo que são raros em livros históricos tradicionais, a história contemporânea humoriza -não sem certa tristeza e ironia- a depravação de nossa elite política e empresarial (que se mostram, praticamente, a mesma) tal qual a aristocracia pequeno-burguesa de outra época. O que chega ao leitor é a ressurreição de nossos antepassados fantasiados em momentos-chaves, seja no presente mais recente ou na luta armada contra a ditadura militar. A leitura que se segue é a marcada em carne-viva sobre os efeitos coloniais e pós-coloniais, em um lapso temporal que diz justamente sobre as próximas eleições, sobre os movimentos urbanos (ONGs, manifestações etc.) e a capacidade de absorção de diversas frentes. Reivindicações e reinvenções são liberdades capazes de refazer a história, em que princípios antigos se mostram necessários para abolir a moral vigente sobre a qual os privilégios se perpetuam.

O protagonista passa pela infância, fase adulta e chega à chamada terceira-idade com mais vigor do que nunca. Isso porque ele soube que o camaleonismo é a herança principal do brasileiro, a qual traz todas as vantagens e desvantagens em um país no qual o privilégio de classe define a distribuição de cargos econômicos e de posições sociais.

Como numa antologia sobre  a história de nosso país em uma perspectiva individual, as transgressões e manchas de violência (física e econômica, já que estão quase sempre casadas) organizam a construção desordenada do Brasil. Assim, torna-se nítida a claridade desses pontos em comum, que horizontalizam a visão hegemônica sobre o país em desespero individuais e grupais, mas encarnando esperança e possibilidades utópicas. Dessa maneira, a conscientização passa pela narrativa comum - que é, ela mesma e sem truques mirabolantes, a heresia que sempre foi inerente à população brasileira. Mas, mesmo nesses casos, a desorganização é um fator latente- o que permite às campanhas eleitorais, pormenorizadas devido a presença de Risério na campanha a favor de Dilma, fragmentarem a sociedade sob o discurso da multiplicidade, tornando tudo moeda de troca para voto e garantias de favores.

Há uma crítica feita ao livro sobre os "exageros eróticos" em ambos os tempos narrativos, mas "Que você é esse?" é um romance de exageros que mostram a distinção de cada momento e a forma como o fator "desejo" governa o ser humano há séculos. Assumir isso como um "risco" ou "desvio narrativo" é retirar do livro sua personalidade mais forte- além de sua boa prosa. A intenção do autor não é "retirar as personagens femininas das rédeas do patriarcado", mas lidar com o desejo como fator alternativo às instabilidades políticas e ideológicas. Ver "pornografia narrativa" como exemplo contrário de sutileza é sobrevalorizar o ato sexual, como se apenas outros tópicos fossem válidos de repetição. O livro seria reacionário se recusasse o barroquismo apenas em uma de suas vertentes.

Portanto, a narrativa não se torna totalitária nem busca abarcar toda uma espécie - mas esculpe uma linhagem de "espírito coletivo" que atravessa a formação sociocultural brasileira. Logo, a necessidade do romance abordar as mais distintas regiões brasileiras e narrar episódios poucos contados pelo historicismo hegemônico (a libertação da Bahia, por exemplo).

Para não se limitar a redução do que a ficção pode ou não falar, Risério optou por formas de reapresentar a eclosão multiétnica que atravessou a formação cultural brasileira, para reivindicar o pluralismo que é ameaçado sempre por forças contrárias aos consensos coletivos- seja por interesses financeiros, políticos ou religiosos. Em relação aos personagens-autores que se esforçam para criar uma obra "de valor" no Brasil contemporâneo: são cidadãos que entendem como questão política e urbana são indissociáveis para auto-organizar a sociedade. Ao mesmo tempo, isso não é opção estética- mas uma forma de compreender o que, erroneamente, é atribuído como "brasileirismo" enquanto fenômeno sempre camaleônico. Também se destaca o fato de Daniel Kertzman dar enfase à literatura na parte final de sua vida, como modo de preparação de um futuro que já acontece.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

a recusa essencial (Ruins Of Beverast- Exuvia)


as florestas da Terra não deveriam me assustar. O que me assusta é a luz, na verdade. A luz deixa-me visível e à mercê do olhar alheio e eu tenho vergonha do olhar alheio. Um olhar substancial, que provoca um exibicionismo macabro, que contorce minha mente em especulações subordinadas à tortura do intelecto. Todas essas visões que movem cortinas na sala-de-estar, o modo imperativo que o mundo impõe seus símbolos são destituições nucleares que destroçam os átomos na instância do presente, tornando tudo uma nostalgia imediata. A capacidade do mundo em oferecer nostalgia-expressa alavancada pelo avanço tecnológico, pela possibilidade da troca instantânea de dados. Nessa velocidade fica a minha sombra, a sombra violável pelo satanismo da luz. A sombra que sabe em quais colunas de concreto devo-me esconder, observando pessoas mais importantes guiando pessoas ainda mais importantes na esfera do mundo administrado. O mundo impossível. E tudo é pó, tudo retorna de maneira alquímica. Eu anseio este dia vindouro: em que todos os mortos celebrarão o retorno essencial. O único retorno que fez sentido sob a devastação diária solar. A devastação que são os diálogos, as corridas, o desespero contra os números e a vergonha. A vergonha numérica, a vergonha medida, a vergonha objetiva experimentada em desmedidas. É tão vívida a imagem de Betel olhando-me com ódio & rancor. A imagem veio de um sonho. Mas eu posso imaginar que Betel sentiu exatamente isso quando decidiu excluir-me do seu ciclo. A exclusão essencial, no entanto, ela não conseguiu estabelecer. Ela só aderiu à exclusão personalizada em cliques e boatos. Mas não conseguiu apagar o fato de que mais de um ano depois de nossa última conversa ela estaria presente, clandestinamente, no meu sonho. Impedindo-me que eu embarcasse para o Japão enquanto recusava, de maneira nada polida, meu bom-dia.

na prisão que é o sonho porque sonhar não liberta. Sonhar é o irracional em sua potência máxima, encerrando potencialidades racionais. Depois que tudo passou e mais de um ano segmentou o caminho absurdamente diferente que tomamos, será que ainda pensamos em formas de defender e atacar? Será que ainda gostamos das mesmas bandas ruins e será que não estamos aferrados a gostos anteriores para tentar preservar o pouco de nós que ainda podemos controlar? São questões que se põem como armadilhas sem respostas. São questões que ficarão vazias durante anos até um de nós ser atormentado por um sonho que remeta a um passado tão antigo enquanto presente inexistente.

Johannes Vermeer -Het melkmeisje

sonhos que queimam nosso pensamento transformam-se em ficção do cotidiano. Um método cíclico de organizar esses estilhaços que compõem o espelho desfigurado que somos. E só refletimos o teatro do outro. Então fazemos assim: ninguém foi pior que ninguém, você precisou de sua ficção como eu precisei de minha mentira e dessas palavras que se esforçam para serem algo além de vazias. Porque foi muito recentemente que eu aprendi que quase todas as palavras as quais eu mais me aferrava não traziam nada consigo além de banalidade autoexplicativa.

foi preciso que meus olhos se tornassem nuvens nubladas e na distância que Lavras parece ter com todas as outras cidades do Universo eu visse a fragilidade de nossos elos forjados. Eu ouvisse cânticos antigos embalados pela prepotência da vontade de pertencer a algo e por isso me esforcei com textos quase diários sobre o deslocamento na espera de que a produção incessante criasse algo tão inútil quanto amizade.

o mapa morto que é essa cidade: as casas de barro sem coloração emprestando aos enormes sobrados construídos a lembrança de que ainda se trata dum país de terceiro mundo, de que você pode tentar constituir arquitetonicamente o visual que quiser e, ainda assim, não vai escapar do fardo carnal que é seu pertencimento. Nesta cidade não há mar e as cachoeiras são distantes. Minha vizinha, que pinta a unha da minha mãe em troca dos perfumes que esta vende, nunca viu o mar. O mar mais perto daqui é da praia de Ubatuba. Ubatuba é uma praia intangível: tudo lá é caro e o provincianismo globalizado de alta-renda conseguiu até transformar a paisagem em um visual artificial. Em um ponto morto para quem nunca ultrapassou os limites lavrenses

Big Little Lies, de David E. Kelley
eu deveria nunca mais descansar aqui. Nunca mais atribuir qualquer estupidez interna a essa enorme indiferença diante da qual me deparo. E se eu te dissesse que aqui é o ponto-limítrofe? E se eu dissesse que essa espécie de ficção formada por qualquer pretenso "nós mesmos" estivesse, sempre, na beira de um estilhaço de um mundo mal-resolvido. Um mundo cuja beleza negou nossa entrada total. Um mundo exibicionista cuja principal construção poética é a aparência do efêmero. Porque até mesmo esta ideia pretensiosa de efemeridade é uma tentativa de poetizar o que é só aparência. O que nem tem densidade o suficiente para se caracterizar como efêmero ou qualquer outra atribuição tola que discorra sobre nossa fragilidade ao nomear tudo que é impossível. Nesta escala necrótica os dias têm passado: impressionado com o barulho da urina, impressionado com o prazer de umas coisas nada a ver, tipo depilar-se. Tipo ouvir a teimosia da água do chuveiro tentando acobertar o doom metal que sai do meu celular. Como se essa junção específica da arte (por falta de um substantivo melhor) pudesse erradicar a perdição do meu cotidiano.

como se essa concentração em tentar definir a distância fosse erradicar esta falta de ar