terça-feira, 27 de dezembro de 2016

como (quando) começar a ser alguma coisa- pensamentos ouvindo "Benji", do "Sun Kil Moon"


A primeira vez que eu viajei para Ibitiúva nós pegamos uma estrada de terra e eu lembro de estar ansioso e apressado e da dispersão poeirenta levantar embaçando a vista dos que estavam no carro. Da última vez que toda minha família se reuniu eu ainda não sabia de nada; eu não sabia das drogas e dos monstros que cada um de nós viraria, do inferno que os feriados familiares viriam a se tornar. Engraçado que naquela época eu pensava que futuramente olharia para estes momentos como alguma saudade de, sei lá, uma suposta inocência. Eu esqueci quase todos os momentos. Eu esqueci qual foi efetivamente meu primeiro beijo, eu esqueci a primeira vez que eu ralei o joelho e eu esqueci até mesmo os momentos que, naqueles instantes, eu prometi nunca esquecer. É como se eu tivesse voltado à estrada de Ibitiúva (engraçado como dela eu lembro) e tentasse clarear estes momentos apesar de toda poeira levitando e se acumulando nas minhas lembranças. Eu não fui em nenhum funeral de nenhum parente e nem do meu amigo que se matou que eu falei no outro post e eu acho que nos dias dos funerais, especialmente, eu devo ter ficado observando as nuvens formando distantemente e pensando qual seria o meio ideal de acessá-las. Melhor dizendo; lamentando-me pela certeza absoluta da impossibilidade de acesso ao Natural. E então eu ficava envolto no jogo humano, na simulação cotidiana pressionado muito por não chorar o quanto aquelas situações exigiam

Eu poderia viver com o peso de uma suposta culpa por nunca ter estado lá para ninguém pois eu sempre selecionei os poucos por quem eu estaria lá (pouquíssimos, na verdade), mas sempre sem algo que me conectasse com o fato de estar presenciando algo. E aos poucos muitas pessoas foram me desprezando (ou eu apenas achando que elas me desprezavam assim como o inverso deve ser verdade) e claramente todas foram colocadas de lado não apenas pelo tempo ou pela imposição da vida-cotidiana mas por este seletivismo estranho do cérebro em atribuir funerais e passagens à outro plano de pessoas ainda vivas

Meu tio morou no fundo de nossa casa até 2002, salvo engano. Ele bebia muito e  meu pai ficou bem puto porque uma vez ele esqueceu o gás aberto e quase meteu fogo na casa toda. Eu não sabia muita coisa naquela época e não entendi porque meu Tio sempre educado embora sempre cheirando suor (que só anos depois eu fui entender que era acúmulo de álcool com o suor propriamente dito) causava uma sensação estranha nos meus pais. Eu lembro que ele era sócio-permanente dum clube bem chique em Santo André, o Atlético Aramaçan- embora hoje seja meio esquisito questionar como alguém que precisava morar na casa dos fundos da minha família classe-média baixa fosse membro de algo tão inatingível pra gente (das poucas vezes que eu lembro meu pai mirando um ponto alto ele falava sobre, algum dia, se tivesse condições, ser membro daquele clube e ai nós poderíamos jogar bola todo final de semana e nos dias quentíssimos de verão ir à piscina. Essas coisas)

Meu primeiro beijo efetivamente foi com N e eu devia ter, sei lá, quatorze anos embora para não passar vergonha porque praticamente todos da minha classe já haviam beijado eu mentia e dizia que meu primeiro beijo tinha sido aos 11 anos- e eu menti tanto nisso a ponto de muitos anos depois eu realmente confundir a idade do meu primeiro beijo. Eu tinha apenas 14 anos e ela me envolveu com seus braços e eu meio que lembro dos seus olhos verdes e da porta da sala-de-aula fechada e vários meninos e meninas muy jovens observando pelo vidro quadrado centralizado na porta-azul. Eu lembro que gostei e lembro que tinha gosto de menta- o mesmo gosto de menta que eu sentiria em muitos beijos anos depois. O que eu não imaginaria é que o gosto de menta variaria abissalmente para; maconha, cerveja, vodka barata, vinho barato, bafo matinal, halls (preferencialmente preto). Não importa a cor-do-cabelo, não importa a cor dos olhos ou o tipo físico; o catálogo essencial dos beijos que nos são dados nós atribuímos por critério de qual outro sabor externo influenciava na beijação

Naquela escola - a do primeiro beijo- eu fiquei até o primeiro ano do colegial e depois fui para outra escola muito bem vista em Santo André. Naquela época eu amava televisão e ficava assistindo  ESPN Brasil o dia todo e eu meio que praticamente sabia tudo sobre futebol. Santo André designa claramente seus filhos à pertencerem, de uma maneira ou outra, à classe operária estereotipada do ABC paulista. Um histórico muito mais de desavenças, competitividade e liberalismo reacionário do que o sindicalismo heroico que certa parcela da esquerda sempre atribuiu à gente. De alguma maneira, ser do ABC era sempre querer estar numa metalúrgica que pagasse razoavelmente bem e andar sob o sol escaldante com macacão de peão enquanto atribuía-se todo o esforço para uma potencial compensação futura

Eu passava o dia jogando videogame e assistindo televisão perguntando-me quando as coisas efetivamente aconteceriam. E para simular que elas objetivamente aconteciam, eu mentia em excesso para meus colegas de escola sobre supostas noitadas enquanto o máximo que eu fazia era trocar uma ideia com meia dúzia de fodidos todo final de semana na Liberdade. Disso eu lembro bem, mais do que a maioria das pessoas que eu beijei ou dos motivos que me fizeram cursar cursos quais eu nunca me importei. Quando o meu ex-amigo, também chamado Henrique, foi preso, eu me senti meio esquisito. Ele que me mostrou Gorillaz quando ambos éramos ainda muy jovens e ele era meio que referência para jogar CS na lan house do bairro que todo moleque da rua ia

Quando eu era novo meu pai sempre arrumava um jeito de me dar dinheiro mesmo ambos sabendo mais ou menos que aquilo iria fazer alguma falta, eventualmente. Eu presenciei como alguém pode sacrificar-se pelo filho e quando as coisas melhoraram financeiramente e quando eu cresci e comecei à trabalhar é claro que eu depositava algum dinheiro em sua conta. Mas ele sempre devolvia quase tudo e embora ele não entendesse propriamente o mundo de músicas e livros e filmes no qual eu estava entrando essa era a sua maneira mostrando que sempre estaria lá. Não devia também ser muito fácil para ele ver o filho de todo mundo ao redor se dando bem na vida de um jeito ou de outro enquanto eu estava numa frustração enorme comigo mesmo e também com o mundo e ficava pensando obsessivamente nessas coisas submetido à utopia-teórica de Thoreau ou à agressividade de blogueiros ricos mostrando como dava para levar "o seu estilo de vida" e era naquele desacerto eterno em descompasso com a aceitação que eu andei muitos anos (e ainda resvalo nessa projeção que, no final, é tão abstrata quanto o estilo de vida que eu sempre critiquei). Não é também como se eu me crucificasse por isso; era o que dava para fazer/ser na época, e eu perdi muitos potenciais amores e potenciais amizades não por ser quem eu era, mas por nunca saber exatamente como começar a ser alguma coisa

Sempre que tá passando O Chamado em algum canal de televisão eu deixo nele e lembro que foi o filme de terror que mais me deixou cagado na vida. Eu o vi com meus pais, ainda muito novo, e tive que pedir para dormir com eles na cama de casal porque literalmente não conseguia fechar os olhos- naquela época eu ainda acreditava em deus ou em fadas ou que o ar pudesse pegar fogo. Eu dormi tantas vezes na cama dos meus pais quando era muito novo e devo tudo aquilo à um terror abissal da noite e do seu obscurecimento brutal de possibilidades (engraçado como depois a noite representaria em drogas e bebedeiras os únicos momentos que eu sentia estar no meio de algo). Um pouco depois dessa época atordoada e um pouco antes do meu primeiro emprego todo final-de-semana eu ia ao shopping com meu amigo T e nós íamos à pé para economizar dinheiro porque a gente juntava para, depois, comprar uma garrafa de vinho barato e descer a Rua Figueiras fingindo sermos adultos ou qualquer besteira dessas. Os verões de Santo André se resumiam em andar pela rua, jogar bola na rua e depois surgiu um videogame que eu fiquei vidrado tantas e tantas tardes. Henrique deveria estar fazendo o que na época? Eu não lembro em qual ano ele foi preso e depois saiu e eu o vi tomando uísque com energético na padaria próxima de casa e, honestamente, imaginei que veria aquela cena muitas vezes novamente até que na outra semana ele foi preso novamente e só seria liberto cinco anos depois (suponho, então, que ele já saiu, né?). A "Samara" imponente no monumento de Verbinski ao horror e a impossibilidade de redenção que tal gênero sempre precisou- quando tentaram fazer dela uma espécie de incompreendida ela foi lá e matou aquele cara e eu fiquei bem puto pensando "porra por que se já tava tudo bem" e eu carrego, desde então, daquela primeiríssima vez que assisti O Chamado, um respeito enorme pela menina morta subindo o poço cujo rancor e desejo de destruição sempre esteve muito além de qualquer compreensão (às vezes, andando por Lavras, eu acho que sinto um pouco do que "Samara" sentia). Eu ficava hipnotizado com o Horror na tela e Henrique devia estar hipnotizado com as coisas muito mais reais e brutais do que qualquer suposto horror fictício

" o Marcos morreu hoje" e como a gente advinha que foi suicídio e não uma morte mais ou menos comum? Como a gente se acostuma com as trocentas perdas per ano que a gente tem a ponto de esquecer a configuração do rosto ou a levitação da sobrancelha direita no rosto de quem a gente supostamente amou? O olho maníaco do outro desejando nossa destruição e nossos olhos provavelmente expressando a mesma coisa? É muito estranho porque essa familiaridade que se transforma em Horror (a "Samara", novamente) não faz só a gente perder o empenho como ficar paranoico com os símbolos que nos rondam a ponto de atribuir à estes uma especificidade doentia e qualquer objeto comum se tornar num Horror potencial. E aqui eu quero dizer do verdadeiro Horror; aquele que faz sua cabeça ficar acelerada pensando mil merdas diferentes de pessoas antigamente próximas e que te faz ter um vislumbre da Realidade e você ver, bem nitidamente, quão ruins as pessoas conseguem ser e ficar espantando com o próprio ódio que, de repente, nasce em ti

"E" costumava vir na frente do portão da nossa casa e me chamar e eu ficava feliz porque por algum tempo ele meio que foi meu melhor amigo e eu lembro de ir ao Estádio Bruno Daniel com ele e sua família assistir algum jogo do Santo André. Minha mãe que normalmente atendia e dizia "o Henrique já vai" e ai eu não lembro exatamente o que a gente fazia mas eu suponho que era ou jogar bola ou jogar videogame (eu não consigo lembrar se já existia lan house no pouquíssimo período que "E" e eu fomos melhores amigos). Em algum ponto da sua vida ele se tornou evangélico (daqueles que vai de terno-e-gravata e coisa e tal à igreja) e não dá pra condenar suas artimanhas para escapar do pai alcoólatra (embora nunca agressivo). "o Henrique tá ai?" é o que ele costumava perguntar meio sabendo que sim, eu estava. Imagino que quando minha mãe respondia "hoje ele não tá" ele deveria ficar surpreso e imagino que ele saía da sua casa (uma casa de aluguel em cima de uma loja de vassouras) sempre com a certeza de que eu estaria lá pois eu saía pouquíssimo. "E" e eu costumávamos rir bastante e, novamente, eu falho em lembrar sobre o que, precisamente. Acho que ele vai surgir cada vez menos na minha memória mas eu meio que fico feliz porque eu não consigo lembrar dum momento ruim entre a gente

Eu acordei hoje, 27 de dezembro e lembrei de todas essas pessoas e meio que quis escrever sobre elas. Elas vivem e não vivem, elas são abstrações e também são realidade. Tá muito calor aqui e imagino que no resto do país também (será se "E", mesmo neste calorão da porra, vai à Igreja de terno?). Tudo tem passado tão rápido e intrincadamente complexo numa evolução exponencial que às vezes, andando por Lavras e observando seu mar-de-árvores e os montes que encerram este mar, eu penso se dá para simplesmente sumir sem o peso disso tudo. Mas, às vezes, tudo parece tão distante e tão leve e eu sei que deveria me sentir, em algum nível, grato por todas estas pessoas e por todas histórias e lembranças que elas me proporcionaram e ainda proporcionam e, quem sabe, sentir menos este rancor adolescente de algumas delas e, quem sabe, mandar uma carta conciliatória para algumas delas pra quando, sei lá, a gente se encontrar na rua não fingir que não nos conhecemos ou que, em algum momento, estivemos confinados dentro da mesma narrativa. Eu só sinto que meio que não tenho uma narrativa sendo construída, sabe?

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mountains May Depart (Shan he gu ren), de Jia Zhang-ke (China/França/Japão)

Com um epicentro lúdico que sabota a mediação da verdade (a concretude dos fatos) para dizer que o evento parte da experiência narrativo-temporal de cada personagem que " Shan he gu ren", de Jia Zhang-ke, executa os múltiplos acontecimentos abordando um período considerável das pessoas. Sabe-se há muito sobre a impossibilidade de apresentar eventos em enredos e é no tatear de cada corpo procurando um bioma mais ameno que circula toda a ação figurativa em " Shan he gu ren". As personagens não são representadas fielmente e nem há este objetivo (ao invés disso é evidenciada a ação delas em suas próprias microrredenções- mais precisamente a dança).

A dança, na filmografia de "Jia Zhang-ke", tem representado um guia espiritual para as personagens se protegerem da vastidão (cidade/rural) ambientada em seus filmes. O alvo analítico de "Zhang-ke" é sobre reações pós-acontecimentos- a mãe depois de abandonar seu filho, este filho depois de abandonar seu pai. Mesmo a concepção redentora que é cantada tantas vezes ("ir para o Oeste) é vencida pelo imediatismo da dança. Por que dançar em uma vastidão se não vai haver nenhum compartilhamento? Se na primeira cena há um grupo dançante, na bela cena final há apenas uma idosa dançando solitária. O discurso da solidão familiar e o esvaziamento contínuo de alguma idealização (principalmente se surgida na primeira juventude) são o oposto destes micromomentos dançantes.

Se eu falei em oposto, não é exatamente um campo dicotômico entre dançar e permanecer estático. Mas a dança parece ser movimentação natural das personagens em "Jia Zhang-ke". A relação extrema de constantes mudanças políticas ao longo do tempo e da participação destas nas vidas (e na passagem do tempo) das personagens coloca toda a projeção de " Shan he gu ren" em uma encruzilhada que os filmes anteriores do diretor não necessariamente apontavam. O discurso opositivo só é possível porque há um discurso de ordem. Basta elucidar que a passagem de tempo em toda a filmografia do chinês sempre influenciou tanto nas paisagens quanto nas personagens, mas nunca de uma forma tradicionalmente esperada (como se a oscilação das pessoas que habitam o mundo de "Jia Zhang-ke" fosse tão imprevisível quanto a alteração nas paisagens artificiais ou naturais). É um cinema obcecado na relação pessoas-políticas-paisagens e de como esta relação descarrila a vida das personagens. No entanto, tem-se  "Shan he gu ren" como o primeiro filme do diretor cuja ambientação não engole perversamente a vida das personagens- e aí tem-se um ponto perigoso; as pessoas se tornaram perversas para "Jia Zhang-ke"? Se os resquícios de uma obra panfletária nunca haviam invadido seu cinema, talvez "Shan he gu ren" seja o primeiro filme em que o diretor sai da relação onipresente para fabular alguma teoria.

Nessa sociologia imanente é importante que algum gesto transcendental como a dança (principalmente a última) ainda guarde seu valor. Talvez não intencionalmente, mas a maior virtude do filme é evidenciar a impossibilidade de simetria (a quantidade de danças nunca vai ser a mesma que a quantidade de discussões). Sem cair em qualquer universalismo falso, "Jia Zhang-ke" deixa sutilmente claro que esta só é uma história possível na China. Diante de tantas complexidades sustentáveis, é de se lamentar que a primeira parte do filme cai no reducionismo "operário gente boa x rico metido". Escolher entre o "capital" e a "doçura" torna-se uma simetria inviável a tudo o que a obra teve a capacidade de construir.

Mais previsivelmente, então, avança-se com as mudanças sonoras também sendo atualizadas (os violinos da primeira cena, o sintetizador da última) como se a cadeia de eventos seguisse um condição apenas temporal (condição esta que o cineasta lutou para contrarrebater em todas suas obras anteriores e, mais precisamente, em Plataforma). A importância do filme se reduz à uma medida historicista sendo que sua capacidade transcendental é engolida por qualquer tipo de mensagem política. Sem tantas complexidades que inicialmente aparentavam, fica-se então a sensação de distância das personagens.

Inscrever estes personagens na subjetividade de um telespectador atento exige mais do que apenas belos planos poéticos ou frases bem catalogadas que refletem o período socio-político. As personagens estão inatas para sair de suas suposições originárias e isso impede atravessamentos tão poderosos quanto os outros filmes do cineasta.


A prova de um sistema simplista de representação binária não consegue ser holograma de mudanças e sim apenas marionetes de uma manipulação mise-en-scène. Afinal, consistência e resistência são tão efeitos capitalistas quanto a escolha interesseira da personagem na primeira parte. O filme se sustenta visualmente mas a compreensão prévia de sua estrutura inviabiliza uma alçada mais essencial. Nós já estamos no fim, já fomos manipulados. A estrutura radical cedeu ao discurso. 

Os 20 melhores lançamentos do Bandcamp de 2016

Inspirado na lista da Fact. Não sei qual necessariamente o termo deles, mas eu usei todos os álbuns disponíveis inteiramente no bandcamp. Meu site de música favorito.

20Stage Four

Touché Amoré

Stage Four


"Stage Four" é um disco essencialmente sobre a morte de alguém próximo, no caso a mãe do vocalista. A melodia que envolve o disco abandona qualquer senso de orgulho e expõe completamente o eu-lírico. Percebe-se a melancolia do vocalista em cada passagem e um estado perpétuo de doença que parece que o tempo não cicatriza. Há tanta paixão neste álbum que é impossível não ter uma reação frente a ele. A tristeza da presença da morte, lembrar das conversas possíveis desperdiçadas- o contexto engole o sujeito e o abandona ruminando o passado. Dito isso;há muita energia instrumental, apesar da uma perda inexpressável ser o principal eixo do disco. 


https://toucheamore.bandcamp.com/album/stage-four

19The Impossible Kid

Aesop Rock

The Impossible Kid 

Quatro anos depois de seu último lançamento, "Aesop Rock" volta com batidas "ocultas". As habilidades que o alçaram a certa notoriedade no "hip hop" independente estão ainda mais complexas. A consciência de "Aesop" está ainda mais internalizada e desenvolve assuntos íntimos como relações familiares e depressão. Há um elemento nitidamente poético na forma de "Aesop" abordar estes assuntos tão árduos e, ainda assim, tirar sutilezas que tornam o "The Impossible Kid" em também um trabalho com um lado muito bonito. A introspeção e a reclusão certamente fizeram bem para seu lado musical. 


https://aesoprock.bandcamp.com/album/the-impossible-kid

18A Pot of Powdered Nettles

Laniakea

A Pot of Powdered Nettles

O conceito da atmosfera de "A Pot of Powdered Nettles" é bem ambicioso e felizmente faz jus à esta ambição. Como se todos os sons tivessem o mesmo fim que não é um fim propriamente dito; é um por vir eterno, uma preambulação fantasmagórica. Um recanto meditativo que insere uma outra possibilidade para a temporalidade das coisas. 


https://laniakea.bandcamp.com/album/a-pot-of-powdered-nettles-2

17Svelte Gulf

Rhetoric of a Shotgun

Svelte Gulf (2016)

"Rhetoric of a Shotgun" me causa espanto e uma sensação de distância do mundo dado. Este impulso isolador dá ao ouvinte a capacidade de criar simulacros. Parte-se e retorna-se ao zero, à uma zona em que a inscrição coincide com a sensação. Ao mesmo tempo que tudo parece derivado, há um início radical que absolutiza todas estas sensações. Se a música é um objeto, ele é refém do criador; mas se o objeto é passível de significado, há uma reinvenção constante de suas interpretações sonoras ainda que elas repitam a mesma coisa. Separa-se da origem para radicalizar outra inseminação, uma derivação criadora. 


https://rhetoricofashotgun.bandcamp.com/releases

16Luminiferous Aether

Mare Cognitum

Luminiferous Aether 
Além dos "riffs atmosféricos" (que são talvez a coisa mais evidente em "Luminiferous Aether"), o "Mare Cognitum" tem muito mais a oferecer. As melodias se condensam espacialmente, prolongando o efeito de imersão causado pelo eco instrumental. Oscilações que transformam o disco num verdadeiro épico. Uma visão densa da indiferença cósmica quanto às nossas meras vidas 

https://marecognitum.bandcamp.com/

15L'autre côté du vent

Otacílio Melgaço

L'autre côté du vent 

Esse álbum de Melgaço oferece uma resistência inicial e aos poucos, por trás dessa densa camada sonora, vamos descobrindo um quarteto que impõe diversas texturas e encontros possíveis resididos nelas. O próprio título (algo como “do lado do vento”) representa uma sonoridade guardada por rumores que de maneira fragmentada se revelam, ascendem e depois retornam à obscuridade inicial. É como se houvesse um núcleo gravitacional que esses elementos rondam, penetram, dissolvem-se. Analisar possíveis coincidências talvez restrinja a abordagem poética que é imanada em todos os movimentos de L'autre côté du vent, poesia que trabalha com reconhecimento e desconhecido de forma paralela. É uma reação que desenha no espaço vazio (o silêncio) impressões de um observador (o compositor) fascinado com essa oportunidade de preencher o espaço, preencher o que não emite barulho. 
https://melgacootacilio.ba...-duration-51-42

14Zanshin

Lena Circus & Itaru Oki

Zanshin 

A peculiaridade é de criar tensões mesmo dos instantes em que tudo parece estar tranquilizado. Há uma espécie de embate entre representar historicamente a evolução do jazz elétrico e não se repetir ao cair em estratagemas datados. Em parte, é um devaneio entre um suposto débito histórico formativo e liberar, também, a intuição em cortes sonoros. De um modo ou de outro, é um precioso mergulho entre desenvolvimento/intuição. 

https://lenacircus.bandcam...gs-records-2016

13On Strange Loops

Mithras

On Strange Loops

Mais espacial do que nunca (e com a técnica de sempre), o "Mithras" sai de um hiato produtivo de nove anos para não decepcionar. A agressividade do "death metal" é elevada às fronteiras mais extremas e técnicas do gênero. Apesar de tantas abstrações, a fusão entre "besta-beats", "riffs" e explosões vocálicas estabelecem um movimento de contínuo transe. A temática existencial se aprofunda enquanto a banda reverbera alto, bem alto. 


https://willowtip.bandcamp.com/album/on-strange-loops

12Alien Flower Sutra

Rob Mazurek & Emmett Kelly

Alien Flower Sutra 

Ao invés de uma dicotomia entre humanidade e cybercriação, como o próprio Kelly canta (“We Are One”), é necessária uma tentativa de unidade; algo ainda impensado, que personifique uma nova compreensão sobre o que o progresso pode passar a ser. É uma entrega ao indeterminado. 

https://intlanthem.bandcamp.com/album/alien-flower-sutra

11Shrines of Paralysis

Ulcerate

Shrines of Paralysis 

A atmosfera "filosófica" do "Ulcerate" retorna da mesma maneira progressista em "Shrines of Paralysis". Múltiplas mecânicas fundem-sem em um complexo plano sonoro. A densidade acumula uma gama de referências- mais explicitamente: "death" metal, black metal e "doom" metal. A impecável técnica e o estilo narrativo de decomposição apontam direções que ultrapassam a nomeação, apenas, de música extrema. O caos é representado multifilamentosamente e nos cruzamentos possíveis entre as nuances de luz num vasto terreno obscuro. É como se o peso inerente ao som caísse em certo padrão e como se a própria maneira de pensar dos integrantes atravessassem a instituição por eles mesmo causada. 


https://ulcerate.bandcamp.com/

10Twisted Strangers

Curse ov Dialect

Twisted Strangers 

Os tipos de "beats" misturados em "Twisted Strangers" nos faz lembrar de como certa dose revisionista pode revigorar um modelo contemporâneo de se fazer música. Elementos que, à priori, tem certo distanciamento uns dos outros fundem-se no "hip-hop" do grupo para se fazer uns dos álbuns mais inovativos do gênero no ano. 


https://consumevalve.bandc...isted-strangers

9Risc

Full Blast

Risc 

É muito difícil precisar necessariamente o que faz um som ser subversivo mas a bem da verdade é inevitável classificar assim, ainda que superficialmente, toda a obra do incansável "Brötzmann". A catarse sempre como elemento de anti-clímax interage com a imaginação do ouvinte materializando sonoramente, mais ou menos, a fantasia do contato músico-instrumento-som-ouvinte. Porque esta interação traz consigo um elemento mitológico, histórico e subjetivo. A subversividade aponta uma quebra do paradigma deste triangulo. A absorção nasce da desarticulação de elementos estáticos e tradicionais. Sons desaparecem, melodias são retomadas- enquanto na movimentação subversiva "Brötzmann" lidera o ouvinte a um terreno em que só a destituição é possível.   

https://trostrecords.bandcamp.com/album/risc

8Rheia

Oathbreaker

Rheia 

Os vocais mansos e melódicos do início do disco transformam-se no prelúdio na "queda-em-si" que é "Rheia". A paixão fica evidente a cada segundo do álbum. A música pesada que envolve em sua superfície melódica uma quantidade densa de fúria e introspecção. Os "blast-beats" aceleram o processo de obscurecimento. As mudanças de tempo interagem com o ouvinte, criando uma linha muito tênue entre impressão e o que efetivamente se ouve. Toda essa atmosfera paralela de dissolvimento/claustrofobia-interna é explorada das formas mais radicais. O caos sombrio de "Rheia" deixa o ouvinte completamente absorto na uma hora de duração do álbum. Mesmo as passagens acústicas e as totalmente bonitas e melódicas trilham esta espécie de apocalipse, em que é somada agressividade e evidenciação da vulnerabilidade do eu-lírico. "Rheia" se levanta de forma pesada para explorar os pontos mais extremos do ouvinte. Não se trata propriamente de um desafio- mas das mais diversas formas de abordar o que se convencionou chamar de "melancolia". 

https://oathbreakerband.bandcamp.com/album/rheia

71

Tekti Kevlar

1 

Dos tantos trabalhos lançados pelo "Tekti Kevlar", esta "compilação de trabalhos aleatórios" é o meu favorito. As  três peças são flagras de três momentos diferentes de composição e há uma estranha incomunicabilidade entre elas. Incomunicação talvez porque "Tekti Kevlar" é um projeto que cristaliza dissonâncias com texturas explicitamente diferentes (até em sentido estético). O trabalho de "Tekti Kevlar" aposta nestas diferentes evocações para se dar conta de algo inalienável. 

https://tektikevlar.bandcamp.com/album/1

6Signals

LOK 03+1

Signals 

As estrelas da capa sugerem algo baseado na ficção científica e realmente o disco se trata da relação sonora do espaço.A narrativa caótica se trata de instrumentos (percussão, etc) que desestabilizam o próprio fluxo para recondicionar o ritmo. As texturas se repetem,se encontram, se desestruturam em seções de livre-improviso. 71 minutos que não são propriamente desafiadores para o ouvinte porque do próprio desafio-interativo entre os músicos tem-se uma bela sessão combinando composição e intuição. 


https://trostrecords.bandcamp.com/album/signals

5Terminal Redux

Vektor

Terminal Redux

O "Vektor" sempre esboçava fazer algo inteiramente conceitual com base na ficção científica e é lógico que "Terminal Redux" foi o a conclusão óbvia disso. Muito influenciado pela onda técnica do metal nos anos 80, o maior mérito do disco é, em sua vasta duração, não soar repetitivo e sempre surpreender o ouvinte. Ainda mais complexo que seus antecessores, "Terminal Redux" é um passo a frente em um gênero que surpreendentemente não tem se estagnado. . No entanto não é apenas uma narração bobinha ou simplista, ela é surpreendente e torna necessária a consulta às letras várias vezes. O álbum conceitual liberta o Vektor das expressões derivativas (embora raras) que se podia encontrar nos trabalhos anteriores. As ideias densas e desenvolvidas sem pressão solidificam esta impressão. Um épico criativo. Sem perder o peso.

https://vektor.bandcamp.com/album/terminal-redux

4Melt

Chippendale - Gustafsson - Pupillo

Melt 

A fúria caótica que a primeira peça imputa aos 7:00 minutos é uma pequena demonstração da agressividade que nasce na interação entre os três músicos. A energia que os vocais de Chippendale traz é como um autenticação menos agressiva (embora ainda assim ensandecida) da enunciação potente do trio. Gustafsson, como sempre, surge com o peso do sopro em seu saxofone oferecendo outra rota deslumbrante num caminho já rico em alternativas. É uma engrenagem de ruído que não cessa de surpreender. 


https://trostrecords.bandcamp.com/album/melt

3Rimming Compilation: Liquid Sky

Cadu Tenório

Rimming Compilation: Liquid Sky

Quando ao final destes dois álbuns estamos novamente em um ambiente mais calmo, percebe-se o tanto de paradoxos que Cadu Tenório estabeleceu em todo o trabalho. Estamos, no fim das contas, em um espaço confinado. Tenório sabe dos limites artísticos. O que não invalida absolutamente nenhuma experiência nesses discos – é um dos atravessamentos mais poderosos erigidos na música contemporânea. 
https://cadutenorio.bandcamp.com/


2

Lost Salt Blood Purges

Only the Youngest Grave

Mais de cem minutos em um ambiente sombrio, nebuloso. A prolongação do tempo e a ambientação desolada evoca nostalgia e solidão. Como se as impressões de sonho se confundissem com a visão de realidade e nesta junção resultasse em uma longa caminhada em uma cidade esquecida. Os cânticos nativos, a profusão de ruídos - os elementos de "Only the Youngest Grave" perpetuam uma estação híbrida e a-dimensionável. Como a abominável capa, o ente se encontra numa caminhada rumo ao oculto, ao inexplicável. 


https://lostsaltbloodpurge...-youngest-grave

1Gensho

Boris With Merzbow

Gensho
"Gensho" ser um dos trabalhos mais pesados tanto do "Boris" quanto do "Merzbow" já diz MUITA coisa. É como se o próprio peso aderisse uma carga "atmosférica" e sua continuidade cada vez mais tenebrosa destituísse tudo o que é humano. Não é como se a obscuridade do disco fosse essencialmente densa, mas como se o próprio "ente obscuro" se deformasse ainda mais frente ao ouvinte.Trata-se de viver a música enquanto fenômeno. A repetição e a distorção da repetição da repetição alçam o ouvinte à uma experiência incomum. Experimenta-se a maldade enquanto elemento fundador do fenômeno. 

https://borismerzbow.bandcamp.com/

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

o céu também é dos suicidas - pensamentos ouvindo Stage Four, do Touché Amoré


Eu estou doente. Meu nariz escorre muito, febre alta, estas coisas. (coisas que nos lembram que ainda estamos vivos e, curiosamente, são sintomas de nossa morte). Eu escolhi me recolher de tudo aqui no interior; não sei o que eu esperava, como se sair de São Paulo fosse resolver alguma coisa. A casa que deixei em Santo André é praticamente vazia em móveis. Quantas vezes eu tive uma crise de ansiedade naquela casa desfigurada, olhando a parede branca fixa da sala de TV que se descascava indiferente à toda história que aquele lar abrigou? "poderia ser pior". Mas aqueles cantos ouviram choro e a parede insensível continuou sua progressão rumo à decadência

De algum jeito, já faz quatro anos. De algum jeito passou e eu pensei menos do que pensei que iria pensar e, ao mesmo tempo, eu continuo pensando na mesma proporção que exatamente três anos e dez meses atrás. Estranho, né? Eu tentei abraçar tudo neste intervalo; álcool, livros e qualquer outra coisa para permanecer em outro mundo. Eu digo a mim mesmo que você, de alguma forma, estava me observando quando eu estava colando grau, que naqueles flashes luminosos era você quem surgia para instantes depois desaparecer. Mas, mesmo assim, surgir. Essas coisas

Com tanta melancolia rondando, fica difícil não lembrar dos filmes que vimos juntos. Eu não pediria mais nada se eu soubesse que Melancolia teria sido nossa última interação e você dizia coisas como "eu não gostei muito" e eu te disse de como a Kirsten nua pra lua representava muita coisa e você discordaria e a gente trocou um abraço tímido no metrô e daí você foi embora e eu nunca mais te vi. Lembranças tuas surgem meio que do nada, sabe? Enquanto eu fico aqui lendo os livros que a gente combinou que leríamos ao mesmo tempo e depois falaríamos deles enquanto tomávamos uma cerveja qualquer nos barezinhos/padarias/lanchonetes de São Paulo

Você morreu em 2012 e eu não fui ao funeral e eu fiquei trancafiado em casa assistindo toda filmografia do Lars Von Trier como minha homenagem às memórias de nossas interações. Você não aguentava mais a Medicina, você dizia que aquilo te sufocava, mas eu não imaginei que te sufocaria a tal ponto de ..  Com um corpo cheio de marcas que não eram de nascença embora eu suspeito que ambos desconfiemos que o ato da tua morte foi apenas a externalização de coisas que você carregava desde a nascença. Sabe?

Os dias em Santo André não mudaram basicamente nada desde que você se foi. Uma coisa ou outra. O mundo, o funcionalismo social, é completamente indiferente às relações afetivas. Nós nos dissolvemos no ambiente e ele adquire corpo e a gente vai sumindo aos poucos. Engraçado como eu lembro só de um tipo de sorriso teu; o aparelho reluzindo à frente dos seus dentes cerrados e brancos. Você me ajudava a achar os filmes de vanguarda e a gente compartilhava isso e suspeito que sabíamos que era um compartilhamento bem maior que provavelmente não saberíamos especificar. Eu ainda to aceitando tudo, absolutamente tudo, embora eu sempre mantive isso debaixo de todas as linhas que escrevi. Eu deixei tudo isso escondido atrás do nervosismo e do rancor para com o mundo, para com as pessoas que ficaram perto de mim- engraçado, sempre temporariamente

Mas aquele livro do McCarthy eu nunca li, nunca tive coragem. Você ia ficar desapontado em saber que dei para um sebo, mas lê-lo com suas anotações de pé-de-página seria meio esquisito, confesso. Então eu improvisei vário textinhos com teu nome (este também é um rascunho, nunca vai ser publicado) tentando dar corpo à uma vida que já era alimento às raízes das árvores de um cemitério que eu nunca vou visitar (você sabe que eu odeio cemitérios tanto quanto funerais)

O que te lavou a fazer  faculdade que não queria e como ela foi pesar tanto ao ponto de você sentir tua vida ser uma distância do mundano e você se aperfeiçoou na arte do distanciamento enquanto interagia com as pessoas e eu posso falar tranquilamente que era só o corpo de Marcos que estava lá a ponto de você compreender absolutamente este sentimento de "só o corpo estar lá" e ver que não estava nem dentro de si então de que serviria o mundo, ou a faculdade, ou os filmes cult? Eu assumo que tudo se deteriora e você apenas acelerou este processo

As palavras mansas e uma tarde de um final de semana qualquer olhando São Paulo nublada e quente no fim do ano prestes a cair uma chuva de verão. A catarse que era sempre teu quarto e como sua pele branquíssima adquiria tons vermelhosos pois envergonhado da bagunça- roupas sobre roupas, pacotes de amendoim (ovinho branco da Elma Chips seu favorito) jogados pelo chão

Eu me pergunto quem foi que viu teu corpo e qual foi a reação. Eu imagino se teus pés estavam descalços porque você sempre andava no seu apartamento descalço. É extraordinária a fraqueza que nós temos com memórias, com as lembranças de interações que se estendiam memorialisticamente em um horizonte aparentemente tangível para sumir entre os dedos de quem nunca conseguiu fixar nada. Quem consegue fixar alguma coisa neste mundo? O céu de Lavras parece editar meu humor e eu vejo os pedreiros em frente à minha casa construindo uma estrutura que nunca acaba enquanto o gramado do meu quintal cresce e pinica os tornozelos de todos que passam - nem estas raízes estão fixadas em algo que contenha o aroma da duração

Suas mãos tremendo enquanto tentava tomar o café- tremendo tanto a ponto de ficar mais café sobre a mesa do que a quantidade ingerida por você e eu te perguntei algo como "Marcos tá tudo bem" e sua assertiva silenciosa para ambos sabermos que não, não estava tudo bem mas você não queria (ou não tinha forças para) falar sobre isso e aí eu inventei um assunto qualquer para aquele silêncio não corroer nós dois. Você se foi sem cozinhar o macarrão que vivia prometendo fazer e hoje é meio que engraçado porque quando nos corredores de qualquer supermercado eu vejo os pacotes de macarrão eu lembro de você sorrindo falando sobre fazer macarrão. Não, eu ainda não me recuperei e é teu sorriso que muitas vezes me persegue em noites insones

No topo dos arranha-céus as nuvens flagram alguém andando reflexivamente sob uma cidade em ruínas olhando para pontos tão altos e distantes tentando encontrar vestígios de alguém que foi seu melhor amigo. Sob as luzes deles acesos, à noite, São Paulo parece menos decadente e eu passo à acreditar, minimamente, em uma magia qualquer- uma magia de comunhão que te traz pra mim em breves relapsos quando eu me pego sorrindo meio que sem querer idealizando um macarrão que eu nunca vou comer


Marcos - 1991 - 2012

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Alan Parker - O Beijo Do Otário


"O Beijo Do Otário" é um romance duro e maravilhoso à medida em que narra um trajeto aparentemente inevitável entre diversas crises que viriam a formar o que conhece-se por Estados Unidos Da América. Allan Parker é, predominantemente, alguém que trabalha com cortes (não à toa é um diretor de cinema) e ambienta suas cenas em rápidas sucessões. Numa época em que os destino parece estar na mão dos liberais ou dos neoconservadores, o embrionário alvorecer norte-americano é caracterizado,  em "O Beijo Do Otário", com um individualismo cru e paralelamente cômico (algo que David Foster Wallace já havia detectado tanto em seus ensaios como no épico "Graça Infinita").
                                                                                                          
Tommy Moran é o protagonista e característico anti-herói que inundou as narrativas romanescas pós segunda guerra mundial. Na espécie de "tour" que essa personagem nos leva por todos os Estados Unidos, percebe-se um sistema de valores culminantemente individualista e sarcástico que vai germinar e implodir na Grande Depressão De 1929. "O Beijo Do Otário" é, à sua maneira, um romance de formação. Pois acompanha-se a vida de Moran desde que ele se separa precocemente de sua família e transforma-se num exímio batedor de carteiras que percorre todo o país fazendo este trabalho. Parker utiliza um procedimento narrativo fragmentado e não necessariamente contínuo, até porque o automatismo aparente de Tommy até certa parte de sua vida (quando se apaixona por Effie) não sugeriria o contrário. Os méritos do romance é impor uma característica "dura" em Moran que aos poucos percebe-se como mecanismo de defesa muito mais forjado do que intrínseco (e não é mais fácil na vida prosseguir com o fingimento?). O que Parker faz, e talvez seja seu maior mérito no livro, é mostrar que há certa desolação em risco ao se abandonar o fingimento e realmente dar a face à vida.

Como pode alguém como Moran ser doce e como pode alguém como Effie mentir? Como poder abandonar o que se foi a vida inteira por um amor idílico e como não ruir quando este se mostrar abalado?

Tommy é o herói e o narrador, é ele quem dá voz aos recantos de um EUA esquecido e, quando percebe uma chance de redenção, tenta acessá-la. Moran é uma pessoa relativamente "suave" se comparada com os outros tantos trogloditas masculinos que a história apresenta. Pode-se tirar uma questão do livro: como escapar dos acontecimentos que aparentam ser seu destino?

O próprio ato de "dizer", "contar histórias" se sobressai não apenas (embora predominantemente) na primeira pessoa, mas no tanto de histórias entrecruzadas que o protagonista percebe ao seu redor- ele custosamente recusa ser parte destas. Em sua estrada da desolação, Tommy é abado pelo excesso de narrativas e, estando de frente à tantos contos dolorosos, ele não quer ser parte disso. Ele é como alguém que perspicazmente toma nota das referências de formação dos valores norte-americanos. Parker impõe uma narrativa convencional para um protagonista "outsider" e talvez apenas no excesso de formalidades que o romance não atinja totalmente seu projeto estético.

Se para Tommy falta aceitação de seus sentimentos, para Parker faltou um pouco de inquietação no olhar para manter o romance tão pulsante como é em seus melhores momentos. Eu não quero afirmar que o autor quis escrever um grande romance, mas há de se ter algum rigor. Principalmente quando é uma história que trata tantos anos da vida de alguém sem mergulhos vertiginosos em sua psique ou escombros emocionais. É impossível para o protagonista ter a liberdade tanto almejada no livro se seu próprio deus ex-machina restringe suas possibilidades. Porque mesmo nos momentos mais preciosos, há ausência de invasão que alce as personagens aos emblemas mais fundamentais do comportamento humano.


Não se trata de derrapadas autorais, mas do que o livro muitas vezes esboçou ser. Há os grandes momentos, mas não os grandes questionamentos. Porque passar para as palavras o cerne de uma estrutura é muito difícil. Felizmente, tem-se muitos vislumbres.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

uma visitação do naufrágio ; Cyclobe - The Visitors



Eu não sei; é como se o resgate do naufrágio fosse uma punição demente das horas em que eu não suportei estar preso neste corpo. Foram dias encarando pontos fixos no quarto como se observá-los intensamente fosse dar o aspecto do significado deles à mim (e quem sabe ai eu não seria um ponto indiferente aos desastres existenciais?). Eu derrapei em algum caminho e embora meu corpo continuou o percurso sem maiores desastres por muito tempo é como se minha própria origem além de esquecida flagrasse o espantamento de se perceber fora do corpo. Eu não sei quando as coisas deixaram de ser palpáveis e quando todo contentamento foi uma supressão de todas as outras vontades. Eu não existo mais em plano algum e todos aparatos metafísicos se dissolveram antes mesmo de eu chegar a ser alguma coisa (ou qualquer outra coisa que não essa dissimulação inventada de fragmentos inexistentes e forjados)