quinta-feira, 20 de julho de 2017

motivação alguma

Eu tentei dizer algo quando você chegou, mas seus olhos apontavam toda a frustração que você esconderia durante toda nossa pretensa conversa. Você estava se formando e chegava todo dia, mais ou menos, às 19:36h com uma cara cansada e uma bolha violácea no topo do dedão do pé esquerdo em função dos sapatos apertados. Você colocou uma peça clássica qualquer e se isolou no seu quarto. Aquele dia, em específico, as nuvens e os relâmpagos lá fora anunciaram uma tempestade que não esperávamos - havíamos olhado na internet a previsão do tempo - e eu não sabia o que falar para animá-lo ou sequer era possível convencê-lo a dar uma saída, pois a coisa lá fora tava feia. Mas eu juro que pensei ontem, quando você mandou a mensagem, "hei, rique, vamos sair amanhã, eu chego sete e pouco, se você quiser me esperar em casa para não pegar a pior hora do trânsito, pode ir antes, a chave tá debaixo do tapete'' e eu juro que pensei que você tava brincando, pois quem ainda punha a chave debaixo do tapete. Eu saí do meu estágio e fui direto à sua casa e você deixou um bocado de dvds pro caso de eu querer assistir a algo enquanto o esperava. Eu coloquei Melancolia, só que a cada 20 min +- você mandava uma mensagem de como odiava aquele curso, de como aquilo o consumia. Às 20 eu bati na porta e perguntei, "hei marco, tá tudo certo, a gente ainda vai sair?", você disse que sim e que só precisava tomar um banho. Eu me acalmei um pouco e sentei no seu sofá exageradamente confortável e caro. Presente do seu pai, e eu achava engraçado porque sempre que ia à sua casa você sentava-se no chão, disfarçando uma recusa ao luxo que ambos sabíamos que você não nutria (o ato de recusar, no caso). Quando você saiu do banho, você disse que estava um pouco amedrontado com os pensamentos que rondaram sua cabeça naquele dia. Que você estava exausto duma maneira que não conseguia explicar, que você se sentia completamente aniquilado internamente, que as escolhas pararam de fazer sentido há muito tempo, que não havia diferença entre ouvir um professor falar sobre anatomia e estar em um barzinho qualquer tomando uma cerveja: os sorrisos nasciam da mesma forma, eles eram endereçados a uma autossatisfação fantasiada em coisas materiais ou discursos revestidos de uma suposta intelectualidade. Em suma, nada parecia excitante e os dias prolongavam sem motivação alguma.


Eu lembro que uma vez você ligou pedindo para eu buscá-lo, caso eu estivesse por perto. Eu menti, eu estava longe, mas mesmo assim fui lá, pois não estava fazendo nada. Você perguntou como estava meu curso e eu respondi Um lixo e você viu que eu estava desanimado pra falar daquilo e esboçou mudar de assunto, mas a volta para sua casa foi atravessar São Paulo em silêncio absoluto enquanto The Glow Pt 2 tocava. A gente fez um acordo de que sempre que andássemos de carro ouviríamos aquele disco. São Paulo passava como uma paisagem morta e a gente jurou que em uns 4/5 anos +- seríamos ,ao menos, capazes de encarar a capital sem tanta desconfiança quanto ao que poderíamos ser. "estou sentindo um pouco de tontura", você disse. Eu perguntei se você havia comido alguma coisa e você respondeu que não, que havia passado o dia todo sem nada no estômago. Eu falei que pediria alguma comida e você disse que não precisava, era só tomar banho e a gente sairia. "as coisas que você disse hoje foram pesadas, cê tá bem mesmo?", "ah to, só quando eu to lá na sala quieto assistindo àquelas aulas que eu fico pensando nessas merdas e tudo fica maximizado e horroroso, cê sabe","a gente precisa, tipo, duma promessa de que, quando nos formamos, sairemos desta posição de encarar o mundo desse jeito bobo e", "ai a gente vira Artista e podemos usar essa dor do corpo como matéria-prima" e eu ri pra caramba ainda antes de chegar ao carro, e depois a gente foi dar uma volta e esquecemos daqueles problemas que nós mesmos sabíamos serem pequenos, escassos,médio-burgueses e coisa e tal.

Vivendo de miojo à miojo embora você afirmasse que seu macarrão era divino e que sabia adaptar seu molho a uma receita vegana. Você disse que aprendeu com alguma amiga em Niterói a fazer o tal molho, mas com o tempo foi aperfeiçoando-o através de pesquisas baseadas em tentativa & erro e era possível perceber uma ganância poética quando você dizia que basicamente todas as coisas consideráveis na vida eram baseadas em tentativa e erro de modo que você começava a enumerar exemplos interligando-os em complexas bifurcações, traçando teias culinárias desde a escola da Cozinha Italiana aos bolinhos portugueses. Você confessou : queria ter feito gastronomia e desvendado sabores ocultos originados de combinações improváveis. Mas essa era outra de suas piras, assim como Cinema. Você traduzia, nas horas vagas, algumas críticas da Cahiers porque queria ter algum domínio sobre a Forma." a Forma, rique, também quer dizer muitas coisas. O conteúdo sustenta o exterior, mas o inverso também é verdadeiro. As Formas insinuam coisas, constroem teorias, se debruçam sobre hipóteses. Vê bem, tentativa e erro" e você ria e eu via seus dentes perfeitamente brancos, num lapso de alegria de quem - mais do que acreditar no que diz - se diverte com o Pronunciado, como se sua oralidade fizesse jus a suas Teorias, de modo que a Forma sustentasse o conteúdo, numa troca constante. A diversidade dos assuntos contigo me contagiava, e eu esqueci das suas reclamações durante a tarde. É como se, ao chegar em casa e ligar aquela peça clássica que eu não conseguia distinguir e se isolar por uns 40 min +- no seu quarto, você se recuperasse daquela tonelada de pensamentos ruins e angústias que tomavam conta de ti durante o dia e estivesse pronto para uma rajada de divagações entrecruzadas sobre, basicamente, qualquer coisa. Era legal porque assim eu podia fingir-me inteligente e arriscar, somente contigo, devaneios que eclipsavam  - vez ou outra - na minha cabeça que pipocava idiotices. Eu procurei no celular - enquanto o carro nos levava a Augusta - algum lugar pra gente comer e você disse "rique, que tal se apenas compramos umas cervejas, pedir um pra viagem no Prime e voltarmos à minha casa para assistirmos a um filme, a gente não vai se arrepender" e eu realmente nunca me arrependia de nada que envolvesse passar algum tempo contigo, falando sobre nada e tudo.


O frio paulista afirmou sua escolha como a correta, embora qualquer frio sustasse em um bar da Augusta (ou região) porque a lotação estaria, provavelmente,cheia. Você disse que aquela região era um reduto glamourizado de sei lá o que precisamente, mas eu gostei tanto da expressão "reduto glamourizado" que fui utilizá-la no meu primeiro Livro. Hoje eu achei um livro que você me emprestou sobre Capivaras & Pinturas Rupestres enquanto arrumava a minha casa de Santo André. Eu nunca cheguei a ler o livro inteiro, mas o identifiquei como algo que exemplificava sua sede pelas coisas, sua vontade de vida. A bem da verdade, eu tentei convencê-lo de que Medicina também poderia dialogar com essa sua ânsia pela manifestação das coisas e você desviou os olhos e disse "eu não acho. Claro, to falando só de mim, mas eu não acho não" e voltou o assunto para as Pinturas Rupestres como, na arqueologia, todo solo era sagrado e passou a meio-que-brincar/meio-que-falar-sério novamente que a Ocupação Humana era algo deslumbrante e por tudo ser tão vasto & gigantesco, a esquisitice era uma manifestação mais originária do que Beleza ou artes esculpidas. Acho que era por isso que você odiava tanto o refinamento da Medicina. Acho que era por isso que você sentia-se freado na sala de aula e mandava aquelas mensagens que, hoje posso encarar, eram como sua experiência do Inferno. Ou talvez você só depositava no Curso toda sua frustração e impossibilidade de ser possível, como se qualquer atitude cotidiana sua fosse batidas em pontas de rochas.

Acontece que inevitavelmente eu sabia que uma hora todos cansaríamos do Mundo Possível As coisas eram apresentadas sem conexão entre elas, a não ser uma manifestação puramente exterior, deformando a paisagem idílica. Como se, ao reparar em seu perfil ao meu lado em primeiro plano para uma janela embaçada pelo frio, eu quisesse protegê-lo de todas as coisas que são possíveis. Mas eu fiquei com medo (ou vergonha) de dizer enquanto sua lateralidade flutuava naquele Vácuo Urbano. Eu fiquei com medo de quebrar o Ritmo da Noite, porque tava tudo bem e os problemas de hoje pareciam estarem se extinguindo enquanto avançávamos em nossos assuntos banais : Teorias conspiratórias, associações para dar risada. E enquanto nós convivíamos em tive a noção plena de que existiria uma penca de personagens em todos os livros que eu ainda quero escrever baseados naquelas Conversas Malucas. Que muitas vezes eu tive a impressão nítida de que tinha passado por todos os seres humanos até encontrá-lo, que a amizade é o último Refúgio e uma Ilhava que ancorava navios sem pilotos. Eu não sei se pensei tudo isso na hora ou se to inventando que pensei tudo isso, mas eu pensei um bocado de coisas enquanto, com o pescoço virado para a minha direita, olhava seu perfil pálido lutando para não ser absorvido  pelas luzes de mercúrio & pelos faróis. Você perguntou "aconteceu alguma coisa" e é claro que nenhuma dessas anterioridades foi pronunciada pela minha boca, só falei "não, não, tá tudo bem". E a gente chegou e nós pedimos lanches para viagem e assistimos a alguns filmes e conversamos esquecendo de nossas crises estúpidas, como mais ou menos as definíamos. E brincamos de escrever uma Revista Online sobre cinema (eu até hoje não sei se é brincadeira) e você me jurou que na próxima visita faria seu famoso macarrão.  Muito depois eu pensaria nesse dia, muitos anos depois eu ainda sinto que todas as coisas que eu escrevo, de alguma forma, convergem praquele dia.  Todas as coisas pareciam distantes, mas eu não quero dizer que a conversa daquele dia foi mais importante que todas as outras que tivemos antes. Porque sempre que conversávamos a tensão do Mundo se transformava numa Faísca Impotente. Porque qualquer que fosse o papo, eu pressentia que você iria sair daquela angústia que tomava conta de você, porque você era encantador e emprestava Energia pra quem quer que estivesse próximo. E eu entendia que uma amizade nascia e eu queria carregá-la minha vida toda.

Uma semana depois você se matou.

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